A Corporação Financeira Internacional (IFC), braço privado do Banco Mundial, identificou o agronegócio, o turismo e a logística como os setores capazes de gerar emprego e crescimento económico na África lusófona, declarações feitas esta semana à margem do 2.º Fórum Empresarial da África Lusófona, que terminou terça-feira em Cabo Verde. Para Angola, a aposta chega num momento em que a diversificação da economia deixou de ser opção e passou a ser imperativo nacional.
O diretor regional da IFC para a África Ocidental e Sahel, Sameh Wahba, afirmou à agência Lusa, em reportagem divulgada pela VerAngola, que os setores foram priorizados pela sua capacidade real de transformar vidas e criar riqueza nas economias que mais precisam.
Porque o agronegócio e o turismo estão no centro da estratégia
Wahba foi direto nas razões da escolha. O agronegócio e o turismo são setores focais do Banco Mundial porque agregam pequenos produtores e produzem efeitos multiplicadores que atravessam toda a economia.
Para cada emprego direto criado pelo turismo, explicou, surgem dois ou três empregos indiretos. É esta capacidade de multiplicar oportunidades que interessa a um continente jovem e ávido por trabalho digno.
A logística completa o triângulo. O responsável considerou-a um pilar principal para o crescimento económico, essencial para o movimento de cargas e pessoas entre mercados que, durante séculos, foram mantidos artificialmente separados.
Às infraestruturas soma-se a energia, classificada por Wahba como essencial para qualquer estratégia séria de desenvolvimento. Angola conhece bem esta verdade: sem eletricidade nas províncias, não há fábricas, não há agroindústria, não há soberania alimentar.
Um mercado fragmentado que a língua comum pode unir
Cláudia da Conceição, diretora regional da IFC para a África Austral, apontou o problema histórico do bloco lusófono: a distância entre os mercados impediu que a lusofonia se constituísse como espaço económico coeso.
Enquanto o espaço francófono africano se organizou e construiu as suas estruturas de apoio, os países de língua portuguesa permaneceram fragmentados, de Cabo Verde a Moçambique, como arquipélagos económicos isolados entre si.
O fórum de Cabo Verde, segundo a responsável, permite olhar de forma mais consolidada para este bloco de cerca de 80 milhões de pessoas e um PIB combinado de aproximadamente 174 mil milhões de dólares. São números que nenhum investidor sério ignora e que nenhuma diplomacia económica angolana pode desperdiçar.
O interesse cresce. As inscrições no fórum passaram de 250, na edição de 2025, para 420 este ano, entre investidores e representantes de vários governos, como noticiou também a RTP.
Angola e Moçambique lideram novos negócios
Entre as duas edições do fórum, aconteceram vários novos negócios no setor do agronegócio, em especial em Moçambique e Angola, a par de novas iniciativas na energia em que a IFC está envolvida, segundo Cláudia da Conceição.
A carteira de projetos ativos nos PALOP ascende já a 750 milhões de dólares, valor também destacado pelas Notícias ao Minuto. Novas parcerias com empresas agrícolas que trabalham com produtores locais serão anunciadas em breve.
Embora grande parte do volume financeiro se dedique às infraestruturas, a responsável sublinhou que a área do agronegócio, incluindo o processamento, está a aumentar consideravelmente. Em termos acumulados, nos últimos cinco anos, a IFC mobilizou cerca de 1,2 mil milhões de dólares em 10 projetos nos seis países: Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique.
Geopolítica turbulenta cria oportunidades para quem produz
Questionado sobre as disrupções geopolíticas globais, Sameh Wahba considerou que as respostas variam entre setores, mas que estas disrupções estão a criar oportunidades, não apenas insegurança.
O aumento do preço dos combustíveis abre caminho a projetos de energia renovável e à conversão do gás em eletricidade. Angola, com o seu gás e o seu potencial solar, tem aqui uma janela histórica.
A guerra na Ucrânia e a insegurança alimentar que agravou criam igualmente mais oportunidades para investir em agronegócios, com a disrupção dos sistemas mundiais de comércio a incentivar a produção local. Quem depende de importações para comer fica à mercê de outros. Quem produz, decide o seu destino.
Cláudia da Conceição acrescentou um argumento que merece ser ouvido em Luanda: os projetos em África apresentam menor probabilidade de incumprimento e retornos superiores aos de outras geografias. O continente não é um risco a evitar, é um rendimento a capturar.
Coordenação entre financiadores nunca tão forte
A IFC concede empréstimos, participa no capital de empresas, mobiliza investimento e presta assistência técnica, mas não é a única instituição no terreno.
As necessidades são enormes, mas existe hoje uma coordenação entre instituições de financiamento que nunca existiu, afirmou Wahba, citando parcerias com o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e o Banco Europeu de Investimento (BEI).
Os objetivos da instituição são claros: aumentar a presença da IFC, seja através de empréstimos ou de participação no capital, e acrescentar apoio às micro, pequenas e médias empresas.
Perguntas frequentes
Quanto investiu a IFC nos PALOP nos últimos cinco anos?
A IFC mobilizou cerca de 1,2 mil milhões de dólares em 10 projetos nos seis países de língua portuguesa em África, segundo Cláudia da Conceição, diretora regional para a África Austral.
Quais são os setores prioritários para a IFC na África lusófona?
O agronegócio, o turismo, a logística e as infraestruturas, incluindo a energia, foram os setores priorizados pelo Banco Mundial e pela IFC.
Qual é a dimensção do mercado lusófono africano?
O bloco representa uma população de cerca de 80 milhões de pessoas e um PIB combinado de aproximadamente 174 mil milhões de dólares.
