A arquitectura angolana entrou numa fase decisiva de autoconhecimento. Um projecto de investigação sobre os 50 Anos de Arquitectura Angolana, divulgado esta semana, propõe-se estudar de forma sistemática tudo o que foi construído, habitado, ensinado e transmitido em Angola desde a independência, em 1975, para compreender como a nação se expressou no território que edificou.
Segundo o Novo Jornal, que publicou o primeiro texto da série dedicada ao tema, a investigação parte de uma distinção metodológica essencial: a «arquitectura em Angola» delimita o universo territorial observável, enquanto a «arquitectura angolana» constitui o objecto interpretativo a compreender. A diferença não é académica; é uma questão de soberania cultural.
Porque é que 1975 é o ponto de partida?
A independência política não produziu automaticamente uma ruptura cultural na arquitectura. O território tornou-se Estado, mas muitas estruturas espaciais, técnicas, urbanas e institucionais do período colonial permaneceram. Outras foram transformadas. Novas referências chegaram, novos actores apareceram, outros desapareceram.
O resultado, sublinha o texto, não pode ser presumido. Tem de ser investigado. E é aqui que reside a dignidade do projecto: recusar definições fechadas do que é ou não é angolano antes de conhecer o terreno. Aceitar uma identidade pronta seria selecionar apenas os exemplos que confirmam uma ideia construída de antemão, um erro que empobreceria a história do país.
Estudar a arquitectura angolana dos últimos cinquenta anos significa, por isso, estudar uma sociedade em transformação através daquilo que construiu, mas também daquilo que não conseguiu construir, preservar, documentar ou transmitir. A guerra civil, a reconstrução nacional, o boom petrolífero e a explosão urbana de Luanda deixaram marcas profundas nas condições de produção arquitectónica, e essa história merece ser escrita por angolanos e para angolanos.
Uma identidade que não se reduz à nacionalidade do arquitecto
Uma arquitectura não se torna angolana simplesmente porque foi construída em Angola. Da mesma forma, não deixa de participar na arquitectura angolana apenas porque foi concebida por alguém de outra nacionalidade. A pertença arquitectónica exige mais: relação com o território e o clima, respeito pelos modos de habitar, relação com a memória, com as técnicas, com os recursos disponíveis e com as práticas culturais.
O texto do Novo Jornal é claro: a investigação pode encontrar obras profundamente enraizadas em contextos culturais angolanos, interpretações contemporâneas de práticas construtivas anteriores, apropriações de modelos internacionais transformados pelas condições locais. Mas também pode encontrar o contrário: edifícios desligados do lugar, modelos importados sem transformação significativa, espaços que reproduzem referências externas sem relação com os modos de vida locais.
E isso também é arquitectura angolana. Não por ser boa ou má, mas porque pertence ao campo histórico e cultural do país. A ausência de relação com a cultura pode constituir, precisamente, um dos resultados mais reveladores da investigação. Numa época em que, como nota a publicação argentina Perfil, a demolição do passado foi durante décadas confundida com progresso, Angola tem a oportunidade de fazer o caminho inverso: documentar antes de perder.
Documentar antes que desapareça
A investigação histórica da arquitectura não pode depender exclusivamente dos edifícios que ainda se conseguem observar. A arquitectura também existe nos desenhos, nos arquivos, nas fotografias, nos concursos, nos contratos, nos regulamentos, nos testemunhos, nas escolas e nas obras desaparecidas. A documentação é parte do próprio objecto científico.
Quem projectou? Quem construiu? Quem encomendou e quem financiou? Que escolas formaram os profissionais? Que projectos foram desenhados e quais foram efectivamente construídos? Que conhecimentos locais foram incorporados e quais foram abandonados? Que obras desapareceram? Estas perguntas, enumera o estudo, não constituem apenas um inventário; constituem uma forma de produzir evidência sobre a nação.
O precedente existe. A investigação de Maria Manuela Fonte sobre urbanismo e arquitectura em Angola, de Norton de Matos à Revolução, estudou a produção entre 1920 e 1974 através da relação entre território, autores, influências e processos de adaptação ao contexto angolano. O desafio para o período pós-1975 é construir um conhecimento de escala comparável, com rigor e amplitude.
Que lugar ocupa Angola na arquitectura global?
A questão da influência internacional só pode aparecer depois, e o argumento é irrefutável. Como afirmar que a arquitectura angolana influenciou a arquitectura global sem antes estabelecer, com rigor, quais foram as suas características, os seus processos de produção, os seus actores e as redes pelas quais os conhecimentos circularam?
O movimento inverso está bem documentado. O estilo internacional, definido nos anos 1920 e 1930 e ligado ao modernismo e ao racionalismo, espalhou-se pelo mundo e marcou gerações de arquitectos. Cabe agora a Angola cartografar o que recebeu, o que apropriou, o que transformou e o que rejeitou, e identificar o que de genuinamente seu ofereceu ao mundo.
A investigação poderá revelar continuidades, rupturas, contradições, apropriações, reinvenções e ausências. Poderá revelar diferenças significativas entre Luanda e outras cidades, entre litoral e interior, entre arquitectura pública e privada, entre habitação, equipamentos, espaços religiosos, infra-estruturas ou arquitectura informal. Tudo isso é conhecimento.
E é esta a condição essencial da investigação científica: não saber antecipadamente qual será o resultado. Como lembra a plataforma ArchDaily, referência mundial na área, a longevidade em arquitectura alcança-se pela adaptabilidade, não pela permanência. Angola, que reconstruiu-se sobre as suas próprias ruínas, sabe disso melhor do que ninguém.
Perguntas frequentes
O que distingue «arquitectura em Angola» de «arquitectura angolana»?
A primeira designa tudo o que foi construído no território; a segunda é o objecto interpretativo que a investigação procura compreender, definido pelas relações com a cultura, o território e a sociedade angolana.
Porque começa a investigação em 1975?
Porque a independência abriu um campo histórico próprio, com transformações políticas, económicas e territoriais que alteraram profundamente as condições de produção da arquitectura no país.
Uma obra projectada por um estrangeiro pode ser arquitectura angolana?
Sim. A pertença não depende da nacionalidade do autor, mas das relações que a obra estabelece com o território, o clima, os modos de habitar e a memória angolana.
