O Banco Sol e a consultora internacional Alvarez & Marsal reuniram, terça-feira, 3 de Novembro, em Luanda, líderes do sector financeiro africano e especialistas internacionais para debater a gestão do crédito malparado, um dos principais obstáculos ao financiamento das economias africanas. O encontro decorreu à margem do Africa Financial Summit (AFIS) 2026, sob o tema Beyond Bad Loans: Restoring Bank Balance Sheets and Unlocking Credit Growth, segundo o portal mercado.co.ao.
A sessão paralela procurou ir além da recuperação da dívida e colocar uma questão mais ampla: como libertar os balanços bancários de activos problemáticos e devolver às instituições a capacidade de financiar o crescimento económico.
Um painel de peso no coração de Luanda
Integraram o painel Osvaldo Lemos Macaia, CEO do Banco Sol; António Ramalho, antigo CEO do Novo Banco e actual Senior Advisor da Alvarez & Marsal; Admassu Tadesse, Group President e CEO do Trade and Development Bank (TDB); e Avelino Kiampuku, administrador executivo da Recredit. A moderação esteve a cargo de José Barata, presidente da Deloitte Angola.
Na perspectiva partilhada pelos oradores, o peso do crédito malparado continua a representar um dos principais constrangimentos à expansão do financiamento às economias africanas e à economia global. Mais do que um desafio de recuperação de activos, os empréstimos não produtivos comprometem a liquidez, condicionam a rentabilidade e limitam a capacidade das instituições financeiras de apoiar famílias, empresas e projectos de investimento.
Macaia: tratar o crédito malparado como legado do passado
Na abertura da sessão, Osvaldo Lemos Macaia defendeu a necessidade de tratar o crédito malparado como um legado que exige mecanismos próprios de resolução, evitando que os problemas acumulados no passado continuem a absorver recursos e atenção que devem estar orientados para a actividade presente e futura dos bancos.
“Os empréstimos não produtivos são passados e a principal actividade deve estar focada no futuro”, sublinhou o gestor, destacando a importância de recuperar e reestruturar activos sem comprometer a capacidade das instituições de gerar valor e financiar a economia.
Experiência europeia e soluções à medida
A experiência europeia esteve igualmente em discussão através da intervenção de António Ramalho, antigo presidente executivo do Novo Banco, em Portugal, onde esteve directamente envolvido num processo de recuperação e transformação institucional. A sua abordagem evidenciou que não existe uma solução universal para o crédito malparado: a resposta depende da realidade de cada banco, do enquadramento regulatório, da estrutura accionista e das condições do mercado.
A experiência demonstra, contudo, que a transparência, a capacidade de execução e a adopção de decisões de gestão firmes são determinantes para recuperar activos e restabelecer a solidez financeira.
Recredit: prevenir desde a origem
A dimensão operacional do problema foi abordada por Avelino Kiampuku, administrador executivo da Recredit, que destacou a importância de intervir desde a origem do crédito. A avaliação rigorosa do risco, a qualidade das garantias, o acompanhamento dos devedores e a capacidade de mobilizar equipas multidisciplinares, incluindo competências jurídicas e judiciais, foram apontados como factores essenciais para prevenir a deterioração dos activos e acelerar os processos de recuperação.
O responsável chamou igualmente a atenção para os constrangimentos associados à morosidade dos processos judiciais, que podem contribuir para a desvalorização das garantias e reduzir a eficácia dos mecanismos de recuperação.
Uma visão continental
Numa perspectiva continental, Admassu Tadesse, Group President e CEO do Trade and Development Bank (TDB), defendeu a reflexão sobre mecanismos regionais de resolução de activos problemáticos, inspirados em experiências internacionais, como forma de ampliar a capacidade de resposta dos sistemas financeiros africanos. A dimensão do desafio exige, segundo a abordagem apresentada, soluções que ultrapassem a actuação isolada de cada instituição e mobilizem investidores, bancos e entidades regionais.
A convergência das diferentes perspectivas, da experiência europeia à intervenção operacional da Recredit e à visão de soluções regionais para África, reforçou uma conclusão central: a resolução do crédito malparado exige estratégia, capacidade institucional, instrumentos adequados e uma actuação coordenada.
Ao promover este debate, o Banco Sol posiciona-se no diálogo sobre um dos temas estruturais da estabilidade financeira e do desenvolvimento económico do continente. Num contexto em que África precisa de ampliar o acesso ao financiamento e mobilizar capital para o crescimento, recuperar a qualidade dos balanços bancários é também criar condições para que o crédito volte a cumprir a sua função essencial: financiar a economia.
