As provas psicotécnicas do concurso público de ingresso externo do Ministério do Interior (Minint), realizadas na semana passada, estão sob suspeita de fraude. Denúncias publicadas nas redes sociais apontam que candidatos teriam usado ferramentas de inteligência artificial para responder às provas, e o psicólogo criminal Cesário Sousa Domingos alerta que a prática pode comprometer a validade dos resultados.
Segundo o reportagem do VerAngola, o especialista concedeu uma entrevista ao portal para analisar as consequências desta alegada prática ao nível da igualdade de oportunidades e da transparência do concurso. O seu diagnóstico é direto: o Estado angolano não pode tolerar que a fraude intelectual decida quem entra nas fileiras de uma instituição que exige disciplina, responsabilidade e equilíbrio emocional.
Denúncias exigem investigação rigorosa
Cesário Sousa Domingos disse ter tomado conhecimento de denúncias concretas que circulam nas redes sociais sobre o uso de inteligência artificial durante as provas psicotécnicas, mas sublinhou que a confirmação formal dos casos depende de uma investigação das entidades competentes.
Esta situação merece atenção, porque não se trata apenas de uma questão tecnológica, mas também de honestidade intelectual, igualdade de oportunidades e justiça no recrutamento.
O psicólogo defendeu que as suspeitas justificam averiguações rigorosas, sem desvalorizar as denúnicas nem responsabilizar candidatos sem provas. Para ele, o júri deve analisar os elementos disponíveis e, confirmadas as irregularidades, adotar as medidas previstas no regulamento, avaliando ainda o impacto da fraude na ordenação final e na passagem à fase seguinte.
Falta de controlo pesou na integridade das provas
Questionado sobre a ausência de mecanismos de fiscalização mais eficazes, o especialista foi categórico: o controlo do uso de telemóveis e de aplicações digitais não deveria ser secundário numa prova desta natureza.
Entendo que os mecanismos de fiscalização deveriam ter sido mais rigorosos, tendo em conta os recursos tecnológicos atualmente disponíveis. A prevenção é fundamental para garantir que as classificações resultem do conhecimento e das capacidades dos próprios candidatos.
Angola construiu, com sacrifício de gerações, um Estado de direito que se quer meritocrático. Um concurso para o Ministério do Interior, instituição que carrega sobre os ombros a segurança dos angolanos, exige meios à altura dos desafios da era digital. Os regulamentos, acrescentou o psicólogo, devem acompanhar a evolução tecnológica e definir claramente os meios proibidos e as respetivas consequências.
Inteligência artificial pode falsificar o perfil psicológico
Um dos alertas mais graves da entrevista diz respeito à própria finalidade das provas psicotécnicas. Cesário Sousa Domingos considerou possível que um candidato utilize a inteligência artificial para simular um perfil psicológico ou comportamental que não corresponde à sua personalidade real.
Um candidato pode recorrer à inteligência artificial para procurar respostas socialmente desejáveis e tentar transmitir características que não correspondem ao seu perfil real.
Isto é especialmente preocupante, explicou, numa avaliação cuja finalidade não é apenas atribuir uma nota, mas recolher informações sobre características psicológicas e comportamentais relevantes para o exercício profissional. Se as respostas forem produzidas ou orientadas por uma ferramenta externa, o resultado deixa de representar aquilo que o teste pretende avaliar.
A questão ganha dimensão quando se lembra que os profissionais do Minint exercem funções que exigem capacidade de decisão sob pressão. Uma má seleção, advertiu o psicólogo, pode ter consequências graves para as próprias instituições de segurança do Estado.
Fraude de uns penaliza candidatos honestos
Sobre a igualdade de oportunidades, Cesário Sousa Domingos não teve dúvidas: candidatos que obtiveram notas inferiores, mas legítimas, podem perder a oportunidade de avançar por causa de classificações artificialmente elevadas.
O principal risco é excluir candidatos que demonstraram honestamente as suas capacidades e favorecer outros cujas classificações possam ter sido obtidas com auxílio indevido.
Não é apenas uma questão de incumprimento de regras, concluiu: é uma questão de justiça, mérito e igualdade no acesso à função pública.
O fenómeno não é exclusivo de Angola. No Brasil, um candidato a delegado foi preso por usar IA durante prova de concurso, caso noticiado pela Revista Oeste, e a legislação brasileira prevê penas de um a quatro anos de reclusão para fraudes em concursos públicos. Já a reportagem do jornal O Globo sobre a validade de provas digitais na era da IA mostra que a Justiça de vários países debate como periciar e validar evidências digitais, um terreno onde uma conclusão pode parecer convincente e não ter suporte nos autos.
A deteção é possível, mas não infalível
Relativamente a métodos de identificação de respostas produzidas com auxílio de inteligência artificial, o psicólogo reconheceu que existem procedimentos de fiscalização, análise de padrões de resposta e avaliações complementares que podem ajudar a detetar irregularidades.
Nenhum método permite confirmar, de forma infalível, o uso de IA apenas com base nas respostas finais. Por isso, a prevenção durante a prova e a investigação de indícios concretos são fundamentais.
O caminho traçado é claro: o Minint deve apurar os factos com rigor, proteger os candidatos honestos e garantir que as instituições do Estado recrutem profissionais com as competências exigidas. A soberania nacional começa também na integridade dos seus quadros.
Perguntas frequentes
O que foi denunciado no concurso do Minint?
Denúncias nas redes sociais apontam que candidatos usaram ferramentas de inteligência artificial para responder às provas psicotécnicas realizadas na semana passada, fato ainda por confirmar oficialmente.
Quais são as consequências do uso de IA nas provas?
Segundo o psicólogo Cesário Sousa Domingos, a prática pode comprometer a validade dos resultados, criar desigualdade entre candidatos e levar à seleção de profissionais com perfil inadequado para as funções do Ministério do Interior.
Como detetar o uso de inteligência artificial numa prova?
Existem procedimentos de fiscalização, análise de padrões de resposta e avaliações complementares, mas nenhum método é infalível apenas com base nas respostas finais, pelo que a prevenção durante a prova é fundamental.
