Angola e a Tanzânia assinaram esta quinta-feira, 29 de Outubro de 2026, em Dar es Salaam, quatro novos instrumentos jurídicos que visam dinamizar a cooperação bilateral nos sectores da aviação, tecnologias de informação, justiça e meteorologia. A cerimónia foi testemunhada pelo Presidente João Lourenço, em visita de Estado àquele país, e pela Presidente tanzaniana, Samia Suluhu Hassan.
Segundo o VerAngola, que teve acesso à nota do Governo angolano, os acordos «vão dinamizar e ampliar a cooperação» entre as duas nações e reforçam «os compromissos com o aprofundamento das relações de cooperação e intercâmbio em distintos sectores estratégicos para o desenvolvimento das duas nações e do continente de modo geral».
Os quatro instrumentos assinados
O primeiro é um acordo sobre a Transferência de Pessoas Condenadas, que o Governo descreve como destinado a «promover o intercâmbio no domínio da justiça e dos direitos humanos». É um passo concreto na aproximação dos sistemas judiciais dos dois países soberanos.
Seguiu-se o «acordo para a Operação de Serviços Aéreos entre e para além dos Respectivos Territórios», com o objectivo declarado de aumentar a mobilidade dos cidadãos e a circulação de pessoas e bens na região, através da implementação de voos de ligação directa entre Angola e a Tanzânia. Para um país que projecta ser porta de entrada da África Austral, a abertura de rotas aéreas é mais do que logística: é soberania em movimento.
Os dois restantes são memorandos de entendimento. Um cobre a Cooperação nos Domínios das Tecnologias de Informação e Comunicação e prevê, entre outros aspectos, «a exploração das potencialidades do Angosat-2». O satélite angolano, construído com esforço nacional, volta assim a afirmar-se como instrumento de projecção tecnológica do país no continente. O outro memorando diz respeito à Cooperação no Domínio da Meteorologia.
Conversações de alto nível em Dar es Salaam
Antes das assinaturas, os dois chefes de Estado conduziram, no Palácio Presidencial de Dar es Salaam, as conversações ao mais alto nível entre as delegações dos dois países, no quadro da visita de Estado que João Lourenço efectua à Tanzânia nesta quinta e sexta-feira, conforme o comunicado da Presidência da República.
Os dois Presidentes não deixaram passar em silêncio um dado histórico: passaram-se 47 anos sem que um Chefe de Estado angolano realizasse uma visita de Estado à Tanzânia. A primeira e única de que há memória foi efectuada pelo Pai Fundador da Nação, António Agostinho Neto, em 1979.
João Lourenço recordou que a Tanzânia é «uma terra que diz muito aos angolanos, a terra do grande panafricanista Julius Nyerere, que a abriu para os combatentes pela libertação de África».
«Hoje os nossos países estão independentes já lá vão 50 anos e isso foi também graças à corajosa contribuição da Tanzânia, seu povo e seus líderes», afirmou o Presidente angolano, citado pelo comunicado presidencial.
Gratidão com história: Nyerere condecorado por Angola
Num gesto que honra a memória da luta de libertação, Angola condecorou o Pai Fundador da Tanzânia, Julius Nyerere, com a Medalha de Honra dos 50 Anos da Independência e atribuiu este ano o seu nome ao Hospital de Queimados de Luanda. O Presidente sublinhou este gesto como expressão de gratidão de um povo que não esquece quem esteve ao seu lado nos anos mais duros da guerra colonial.
Mas Lourenço foi directo sobre o que falta fazer. «Evoluímos pouco em termos de cooperação económica em 50 anos de relações formais. É isto que queremos corriger», declarou. A frase é um diagnóstico honesto e um programa de trabalho: a amizade histórica tem de traduzir-se em trocos, em investimento, em postos de trabalho para angolanos e tanzanianos.
Análises internacionais acompanharam o relançamento deste laço. O jornal tanzaniano Daily News relatou que os dois países reafirmaram o compromisso de aprofundar a cooperação estratégica e identificar novas oportunidades de desenvolvimento para o benefício mútuo dos seus cidadãos. A agência Prensa Latina noticiou que a agenda de Lourenço até sexta-feira contempla conversações oficiais e a assinatura de novos instrumentos jurídicos, e publicações como o The Respondent destacaram a busca de novas oportunidades económicas para estreitar os laços diplomáticos.
Uma ponte entre África Austral e África Oriental
Esta visita inscreve-se numa estratégia mais vasta da diplomacia angolana: diversificar parcerias dentro do continente, valorizar os recursos nacionais e afirmar Angola como actor relevante na integração africana. A ligação aérea directa prevista no novo acordo pode transformar Dar es Salaam e Luanda em pontes entre África Oriental e África Austral, com Angola a colocar ao serviço da região o seu satélite Angosat-2 e a sua posição geoestratégica.
Antes das conversações oficiais, os dois Presidentes mantiveram ainda uma reunião privada no Palácio Presidencial. João Lourenço deixou no livro de honra uma mensagem em que considera vantajosa a visita, destacando «a conversa muito produtiva» com a sua homóloga, Samia Suluhu Hassan.
«Valeu a pena a todos os títulos ter vindo a este país para dialogarmos com os tanzanianos e estabelecermos objectivos de grande alcance, cuja concretização vão, com toda a certeza, contribuir para o reforço das relações bilaterais, para o progresso e para o desenvolvimento dos nossos respectivos países», escreveu o Chefe de Estado.
O Presidente agradeceu ainda a recepção carinhosa reservada a ele, à primeira-dama, Ana Dias Lourenço, e à delegação angolana, um momento que, nas suas palavras, «engrandece angolanos e tanzanianos».
Perguntas frequentes
Quais sectores estão abrangidos pelos novos acordos entre Angola e a Tanzânia?
Os quatro instrumentos jurídicos assinados em 29 de Outubro de 2026 abrangem a aviação, as tecnologias de informação e comunicação, a justiça e a meteorologia.
Quando foi a última visita de Estado de um Presidente angolano à Tanzânia?
Foi em 1979, pelo fundador António Agostinho Neto. A visita de João Lourenço, 47 anos depois, é a primeira desde então.
Que papel desempenha o Angosat-2 nestes acordos?
O memorando sobre tecnologias de informação e comunicação prevê a exploração das potencialidades do satélite angolano Angosat-2 na cooperação entre os dois países.
