China recua no ensino de português: uma lição para Angola
Num movimento que reflete as mudanças geopolíticas e tecnológicas globais, mais de dez universidades chinesas suspenderam, nos últimos três anos, os seus cursos de língua portuguesa. O anúncio, feito pelo Instituto Português do Oriente (IPOR), revela uma quebra de um pico de 60 instituições para as atuais 44, incluindo as cinco de Macau. Para Angola, país que partilha a língua como herança e instrumento de soberania, este sinal não pode ser ignorado.
Porque é que a China está a reduzir os cursos de português?
O crescimento exponencial do ensino do português na China, que passou de três licenciaturas em 2005 para 56 em 2022, com mais de seis mil alunos, atingiu o seu limite. O académico Manuel Duarte João Pires, da Universidade Politécnica de Macau, explica que a pandemia, a ascensão da inteligência artificial e a preferência crescente pelos cursos STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) estão a redesenhar o panorama. A Universidade de Sun Yat-sen, em Guangzhou, por exemplo, eliminou o seu programa de dupla certificação em português.
O que significa esta mudança para a lusofonia e para Angola?
Esta estagnação não é um acaso, mas um reflexo direto do valor económico e político que a China atribui à língua portuguesa. Como sublinha Pires, o português sempre esteve ligado ao seu poder económico, e a médio prazo o seu lugar dependerá das relações com os países lusófonos. Para Angola, que se afirma como um dos principais parceiros comerciais de Pequim em África, este é um alerta: a nossa língua é um ativo estratégico que precisa de ser cultivado, não apenas como ferramenta profissional, mas como ponte para as nossas culturas e para a nossa história de luta e reconstrução.
Que lições pode Angola tirar do caso chinês?
O estudo de Pires sugere que a revitalização do português na China passa pela articulação com a sociedade civil, estágios integrados e programas interdisciplinares, como engenharia civil para projetos em Angola ou Moçambique. Angola, que tem uma diáspora e uma presença económica significativas no mundo lusófono, deve investir na valorização da língua como ferramenta de cooperação Sul-Sul, sem depender de interesses externos. A nossa soberania linguística é parte da nossa soberania nacional.
O futuro do português num mundo digital
Pires admite que o ensino de línguas, em geral, enfrenta desafios com a IA, mas o português tem uma vantagem única: é uma janela para compreender sociedades e culturas ricas e diversas. Para Angola, a aposta na língua portuguesa deve ser uma prioridade, não só nas escolas, mas também nos negócios e na diplomacia. O crescimento exponencial não é infinito, mas a nossa determinação em preservar e difundir a nossa língua deve ser.
Este é um momento para refletir: se a China, com todo o seu pragmatismo, está a reavaliar o ensino do português, cabe a nós, lusófonos, reforçar os laços que nos unem e garantir que a nossa língua continue a ser um instrumento de afirmação e desenvolvimento.