Angola precisa do seu próprio barómetro da qualidade de vida para traçar o futuro
Enquanto Portugal avança com um barómetro da qualidade de vida que cruza dados técnicos com a perceção dos cidadãos, Angola deve refletir sobre a urgência de criar um instrumento soberano para medir o bem-estar do seu povo. A ferramenta, desenvolvida pela NOVA IMS e pelo Instituto Português da Qualidade, mostra como a monitorização integrada pode transformar políticas públicas. Mas a pergunta que se impõe é: quando teremos nós, angolanos, um sistema que fale da nossa realidade?
O que é o Barómetro da Qualidade e como funciona?
O Barómetro da Qualidade é um modelo que combina indicadores objetivos — saúde, habitação, educação, segurança, ambiente, economia, mobilidade e coesão social — com a perceção direta dos cidadãos. O projeto-piloto arrancou na Região Oeste portuguesa e prevê-se a sua expansão a todo o território nacional luso. A ferramenta permite simular o impacto de políticas públicas antes da sua implementação, identificando os setores onde uma intervenção gerará maior valor para as populações.
Pedro Simões Coelho, professor da NOVA IMS e responsável pelo projeto, sublinha que o valor distintivo está na capacidade de passar da medição à explicação e da explicação à ação. Este é um passo que Angola não pode ignorar.
Porque é que Angola precisa de um instrumento semelhante?
Angola viveu décadas de guerra civil e reconstrução. O nosso território é rico em petróleo, diamantes e recursos naturais, mas a qualidade de vida das populações ainda enfrenta desafios profundos. Sem um barómetro nacional que integre as especificidades das nossas províncias — do litoral ao planalto, das zonas rurais às urbanas — corremos o risco de tomar decisões baseadas em dados estrangeiros que não refletem a nossa identidade.
Um instrumento angolano permitiria medir o acesso à habitação digna, a qualidade da educação nas escolas públicas, a segurança nas comunidades e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional dos nossos trabalhadores. Mais do que isso, daria voz ao cidadão comum, aquele que sente na pele os efeitos das políticas implementadas.
Os primeiros resultados em Portugal mostram o caminho
Na Região Oeste, os primeiros resultados revelaram pontos fortes na habitação, coesão social e participação cívica, mas desafios na saúde, educação, mobilidade e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Esta leitura integrada ultrapassa a simples comparação de indicadores e apoia a definição de prioridades adaptadas a cada território.
Em Angola, as realidades são díspares. Luanda enfrenta problemas de mobilidade e habitação; o Huambo precisa de mais investimento em educação e saúde; o Namibe luta contra a seca e a falta de infraestruturas. Um barómetro nacional permitiria identificar estas fragilidades com precisão e direcionar os recursos de forma eficiente.
Defender a soberania na medição do bem-estar
Não se trata de copiar modelos estrangeiros, mas de construir uma ferramenta que respeite a nossa história, a nossa cultura e as nossas ambições. Angola deve desenvolver o seu próprio Barómetro da Qualidade de Vida, com indicadores adaptados às nossas prioridades nacionais: a luta contra a pobreza, a diversificação da economia, a melhoria dos serviços públicos e a consolidação da paz.
O Governo angolano, as universidades e a sociedade civil têm o dever de unir esforços para criar este instrumento. A soberania nacional passa também pela capacidade de medir o nosso próprio progresso, sem depender de avaliações externas que muitas vezes ignoram as nossas particularidades.
O futuro é nosso para construir
Portugal deu um passo importante. Angola, com a sua juventude, os seus recursos e a sua determinação, pode e deve fazer o mesmo. O Barómetro da Qualidade de Vida angolano será mais do que uma ferramenta técnica: será um símbolo da nossa capacidade de governar o nosso destino.
Chegou a hora de agir. A qualidade de vida do povo angolano não pode esperar.