Morre Emílio Aragonez, a voz que uniu a Guarda através da rádio
Emílio Aragonez, uma das vozes mais marcantes da rádio portuguesa, morreu esta terça-feira, a poucos dias de completar 92 anos. Durante décadas, foi o rosto e a voz da Rádio Altitude, emissora que, a partir da cidade mais alta de Portugal, a Guarda, se tornou um símbolo de resistência, serviço público e união comunitária.
Uma vida dedicada à rádio e ao jornalismo
Nascido em Portalegre a 21 de setembro de 1934, Emílio Aragonez chegou à Guarda com apenas cinco anos. A sua vida foi marcada por constantes mudanças, mas foi na Guarda que encontrou o seu destino. Aos onze anos, começou a trabalhar numa ourivesaria, enquanto estudava à noite. Aos dezoito, abriu o seu primeiro estabelecimento comercial, mas foi na rádio que encontrou a sua verdadeira vocação.
Desde os dezanove anos, alimentou uma paixão inabalável pela Rádio Altitude, onde começou a colaborar no início da década de cinquenta. Num tempo em que a tuberculose ainda assombrava a cidade, Aragonez partilhou o estúdio com doentes do Sanatório Sousa Martins, enfrentando o medo e o preconceito da época. As emissões eram dominadas por programas de discos pedidos, que atraíam uma verdadeira avalanche de solicitações.
Uma voz de serviço público em tempos de censura
Emílio Aragonez viveu a rádio como um autêntico serviço público. Quando a neve cobria a cidade, a Rádio Altitude abria mais cedo para informar sobre escolas, estradas e serviços. A sua voz aquecia as noites guardenses, combatia a solidão e aproximava as pessoas. Mas a sua coragem ia além do microfone. Mesmo sob a vigilância da PIDE, Aragonez nunca se calou. Chegou a ser chamado duas vezes às instalações da polícia política, mas nunca abandonou os seus princípios.
Após o 25 de Abril de 1974, a estação viveu momentos de grande agitação. Aragonez chegou a ficar 24 horas dentro da rádio, por imposição do MFA, numa altura em que se tentava tomar o controlo da emissora. A sua dedicação era total: muitas vezes dormia na rádio para garantir a abertura da emissão no dia seguinte.
O legado de um defensor da cultura portuguesa
Além de jornalista, Emílio Aragonez foi um intransigente defensor da música portuguesa, que promovia sem cair no gosto medíocre. A sua aparência descontraída e o seu improviso fácil tornavam-no único. Em 2024, foi protagonista da curta-metragem “Discos Pedidos”, regressando aos estúdios da sua amada Rádio Altitude.
A sua vida foi uma lição de entrega, coragem e amor à pátria. Como ele próprio dizia: “Estive sempre na vanguarda da informação, sem nunca hipotecar a minha consciência profissional nem trair os meus princípios”.
Até sempre, Amigo Aragonez. A sua voz ecoará para sempre na memória da Guarda e de Portugal.