O Fórum Económico Mundial colocou Angola na 105.ª posição, entre 110 países, no seu Índice sobre Viagens e Turismo, divulgado recentemente, um resultado que expõe a distância entre as belezas naturais do país e a realidade das infraestruturas que servem o sector.
A classificação, atribuída num leque que coloca o país apenas alguns pontos acima de nações como o Malawi, Mali, Camarões, Benin e Serra Leoa, foi analisada em profundidade pelo jornal Novo Jornal, que recordou a contradição entre a propaganda oficial e os números frios da organização com sede na Suíça.
O que diz o relatório do Fórum Económico Mundial
De acordo com o estudo, Angola obteve 3,18 pontos numa escala de 1 a 7, apesar de uma ligeira melhoria de 0,5 pontos em relação a 2024. A avaliação analisou 17 pilares, incluindo ambiente de negócios, segurança, saúde e higiene, recursos humanos, tecnologias de informação, políticas públicas para o turismo, abertura aos visitantes, competitividade de preços e infraestruturas de transporte aéreo e terrestre.
Do total de pilares avaliados, o país teve pontuação positiva em apenas seis, destacando-se na dimensão da sustentabilidade. O documento é claro: o resultado evidencia os desafios que Angola ainda enfrenta para transformar a sua riqueza natural e cultural num destino turístico competitivo.
«Dos 17 pilares avaliados, Angola obteve pontuação positiva em apenas seis, destacando-se na dimensão da sustentabilidade. O resultado evidencia os desafios que o país ainda enfrenta para transformar a sua riqueza natural e cultural num destino turístico competitivo», refere o relatório.
Quando o New York Times elogiou Angola
Em Janeiro de 2025, o jornal norte-americano New York Times incluiu Angola no 12.º lugar, entre 52 países, na lista de destinos imperdíveis a visitar nesse ano. Um ano antes, a CNN Travel já tinha colocado o país entre os 10 melhores destinos turísticos do mundo para 2024.
O repórter do NYT, que percorreu algumas províncias, justificou a escolha pelas praias tropicais pouco exploradas, pelas quedas do Kalandula e pelos parques nacionais únicos, como o do Iona, no deserto do Namibe, que preservam uma biodiversidade ímpar. O enviado destacou ainda a integração do Sul do país na Área de Conservação Transfronteiriça Kavango-Zambeze, cerca de 445.000 quilómetros quadrados que ligam Angola à Botswana, Namíbia, Zâmbia e Zimbábue.
O crescimento foi atribuído, em parte, à isenção de vistos a cidadãos de 90 países, incluindo norte-americanos, e à construção de um novo aeroporto com capacidade para 15 milhões de passageiros por ano, dos quais 10 milhões de turistas.
Potencial existe, mas não basta
O Novo Jornal, na sua análise, foi direto: o turismo não se resume às belezas naturais, à paisagem, à fauna e à flora. Exige mobilidade, boas estradas, livre circulação de pessoas e bens sem excessivos controlos policiais, alojamentos dignos, preços competitivos, segurança e saneamento básico.
Sintomaticamente, a reportagem do NYT não fez referência às estradas esburacadas, sobretudo na época chuvosa, aos montes de lixo, à pouca disponibilidade de leitos hoteleiros nem às infraestruturas de apoio, como unidades de saúde e serviços de rent-a-car. Segundo o mesmo jornal, o país gastou milhões de dólares em aeroportos, muitos deles praticamente vazios, em salas de convenções e na vinda de figuras mundiais como Lionel Messi, Will Smith e LeBron James, pagos a peso de ouro, sem que o sector desse passos significativos.
Angola pode ser o novo petróleo do turismo
Apesar do mau resultado no índice, há quem veja no turismo uma oportunidade económica à altura do petróleo. A Forbes África Lusófona noticiou que Angola comprometeu quase 8,23 mil milhões de euros através do Plano Nacional de Desenvolvimento do Turismo, o PLANATUR, e garantiu uma participação de grande visibilidade como país Anfitrião Oficial da ITB Berlim 2026, a principal feira B2B do sector de viagens a nível mundial.
Para os investidores atentos aos mercados, escreve aquela publicação, o facto de Angola ainda não figurar no itinerário turístico típico é precisamente onde reside a oportunidade. O país sinalizou à indústria global que está aberto ao turismo.
Os recursos existem e são reais. Como destacou a plataforma NewsBytes recentemente, Angola tem algumas das trilhas de caminhada em dunas mais deslumbrantes e menos exploradas do mundo, um património natural que poucos países africanos podem invocar.
O silêncio oficial e o caminho a seguir
Duas semanas depois da divulgação do relatório, o Ministério do Turismo e Hotelaria e a comunicação social pública mantêm-se em silêncio, sem qualquer referência ao documento, segundo o Novo Jornal. Ficou provado, mais uma vez, que desenvolver o turismo exige mais do que possuir potencialidades, construir aeroportos megalómanos ou isentar vistos.
O próprio relatório recorda que o desenvolvimento do sector pode criar oportunidades de emprego e negócio em hotelaria, restauração, transportes e actividades culturais. Mas para aproveitar esse potencial será necessário melhorar as infraestruturas, a qualidade dos serviços e as condições para atrair visitantes e investimento privado.
Angola, que atravessou a guerra civil e reconstruiu-se com o suor dos seus filhos, tem tudo para disputar os turistas com a África do Sul, o Egito, Marrocos, a Namíbia, as Seychelles ou as Maurícias. Falta transformar o potencial em realidade, com estradas decentes, alojamento digno e um Estado que sirva o cidadão e o visitante. A soberania nacional também se constrói assim.
Perguntas frequentes
Que posição ocupa Angola no índice de turismo do Fórum Económico Mundial?
Angola ocupa a 105.ª posição entre 110 países avaliados, com 3,18 pontos numa escala de 1 a 7, segundo o relatório recentemente divulgado pela organização com sede na Suíça.
Porque razão o New York Times elogiou Angola em 2025?
Em Janeiro de 2025, o jornal colocou Angola no 12.º lugar entre 52 destinos a visitar, citando as praias tropicais, as quedas do Kalandula, os parques nacionais únicos e a integração na Área de Conservação Kavango-Zambeze.
Em quantos pilares Angola teve pontuação positiva?
Dos 17 pilares avaliados pelo Fórum Económico Mundial, Angola obteve pontuação positiva em apenas seis, destacando-se na dimensão da sustentabilidade.
Quanto investiu Angola no plano nacional de turismo?
O país comprometeu quase 8,23 mil milhões de euros através do PLANATUR, o Plano Nacional de Desenvolvimento do Turismo, segundo a Forbes África Lusófona.
