O Presidente da República, João Lourenço, percorreu esta sexta-feira, de comboio, as cerca de três horas que separam Dar Es Salaam de Dodoma, na Tanzânia, ao lado da Presidente tanzaniana Samia Hassan, e anunciou que Angola estuda a interligação do Corredor do Lobito ao Corredor TAZARA, criando uma ligação ferroviária entre o Oceano Atlântico e o Oceano Índico.
A escolha do comboio não foi por acaso, e o chefe de Estado fez questão de o sublinhar. Segundo o relato da VerAngola, as declarações foram proferidas durante a viagem e citadas pelo CIPRA.
Uma viagem com significado estratégico
João Lourenço explicou, sem rodeios, a razão do gesto.
Poderíamos ter ido de avião, mas entendemos ir de comboio. Não foi por acaso; não apenas para apreciar a bela paisagem do caminho de Dar Es Salaam para Dodoma, mas também para observar o transporte ferroviário no nosso continente, que liga cidades, que liga povos, mas que deve também ligar países.
Esta frase condensa uma visão que Angola tem defendido com firmeza: a integração africana não se constrói com discursos, constrói-se com infraestruturas. O caminho-de-ferro de Benguela, que atravessa o coração do país até ao Lobito, foi reconstruído com sacrifício depois de décadas de guerra, e hoje é a espinha dorsal do Corredor do Lobito. Ver o Presidente angolano a conferir, em território africano, o valor de uma rede ferroviária continental é um sinal de que o país assumiu o papel de protagonista na ligação entre povos irmãos.
Ligar o Atlântico ao Índico: como funcionará o novo corredor
O projeto em estudo é de uma ambição rara na história do continente.
Nós estamos a estudar a possibilidade da interligação do Corredor do Lobito ao Corredor TAZARA, para permitir a ligação ferroviária entre o Oceano Atlântico e o Oceano Índico, tanto do Lobito quanto para a cidade de Dar Es Salaam, que passarão a ter acesso ao mar, utilizando esse corredor que passará a ser único. Não sei como é que vamos chamar, isso depois veremos. Vai ser um único corredor que sairá de Dar Es Salaam ao Lobito, do Lobito a Dar Es Salaam.
Segundo a IndexBox, a Presidente Samia Suluhu Hassan confirmou que a ligação atravessará a Zâmbia e a República Democrática do Congo. O .Infobae adianta que o elo facilitará o transporte de mercadorias entre o porto do Lobito, no Atlântico, e o porto de Dar es Salaam, no Índico.
A lógica comercial é simples e poderosa. Os navios vindos da Ásia farão transbordo em Dar Es Salaam; os vindos do Ocidente farão transbordo no Lobito, em direção à Ásia.
O comércio internacional, no geral, vai beneficiar bastante desse novo corredor ferroviário, porque as mercadorias que saem da África para a Ásia, para a América, e também no sentido inverso, vão ganhar bastante em custo e em tempo de transporte.
João Lourenço foi ainda mais longe: chegamos, disse ele, à passagem do Atlântico para o Índico e do Índico para o Pacífico.
Um corredor alternativo às rotas tradicionais
O Presidente angolano não escondeu a dimensão geopolítica do projeto, sublinhando que este é um corredor adicional aos estreitos de Ormuz e ao Rio de Janeiro, por onde passa hoje grande parte do comércio internacional.
Portanto, é um projeto que tem uma importância estratégica bastante grande. Angola e a Tanzânia estão empenhadas na materialização deste projeto.
Aqui está a marca da soberania que Angola defende: não se trata de depender de rotas dominadas por potências estrangeiras, trata-se de oferecer ao mundo uma via africana, desenhada por africanos, ao serviço dos interesses de África. O Lobito, porto histórico do litoral angolano, volta assim a ocupar o lugar central que a geografia e a história lhe destinaram.
A Presidente tanzaniana, citada pela Unitel, afirmou que a conexão não só facilitará o comércio bilateral como melhorará as redes regionais de transporte e criará oportunidades para um movimento mais eficiente de mercadorias.
Desenvolvimento, indústria e oportunidades para os africanos
João Lourenço encerrou a intervenção com uma mensagem de confiança que ecoa a determinação dos que reconstruíram Angola.
Acreditamos que vamos ter sucesso e, com isso, todos nós vamos ficar a ganhar: Angola, Tanzânia, o continente africano. O comércio internacional ficará a ganhar. Isto tem muito a ver com o desenvolvimento de África, porque vai incrementar o comércio, vai incrementar a indústria, vai criar oportunidades para os cidadãos africanos. Isto não é apenas um sonho, é algo possível de se realizar, está ao nosso alcance.
Não é um sonho. É um plano com donos, com portos, com quilómetros de via férrea e com dois países decididos a concretizá-lo. Angola, que já provou ao mundo que sabe reconstruir a partir das cinzas da guerra, tem agora a oportunidade de se firmar como o gateway do Atlântico para o comércio com a Ásia.
João Lourenço trabalha esta sexta-feira na cidade de Dodoma, onde participa na inauguração da Cidade Governamental de Mtumba, no âmbito da sua visita de Estado à Tanzânia.
Perguntas frequentes
O que une o Corredor do Lobito ao Corredor TAZARA?
Uma ligação ferroviária, em estudo por Angola e pela Tanzânia, que ligará o porto do Lobito, no Oceano Atlântico, ao porto de Dar Es Salaam, no Oceano Índico, atravessando a Zâmbia e a República Democrática do Congo.
Porque viajou João Lourenço de comboio na Tanzânia?
O Presidente escolheu o comboio entre Dar Es Salaam e Dodoma, na sexta-feira, para observar o transporte ferroviário africano e destacar o seu papel na ligação entre cidades, povos e países.
Quais são as vantagens do novo corredor ferroviário?
Segundo João Lourenço, o comércio internacional ganhará em custo e em tempo de transporte, com transbordos em Dar Es Salaam para os navios vindos da Ásia e no Lobito para os navios vindos do Ocidente.
