O Presidente da República, João Lourenço, participou esta sexta-feira, 30 de Outubro, na inauguração das infra-estruturas essenciais da cidade governamental de Dodoma, na Tanzânia, a convite expresso da Presidente Samia Suluhu Hassan. No discurso que proferiu na ocasião, o chefe de Estado angolano afirmou que o maior desafio da cooperação entre os dois países é transformar os compromissos assumidos em projectos concretizados, em oportunidades de negócio e em benefícios reais para os cidadãos.
Juntamente com a Presidente tanzaniana, João Lourenço cortou a fita que marcou o novo momento da urbe, futura capital política do país, e descerraram a placa que assinala a abertura de novos edifícios administrativos, ruas, avenidas e outras infra-estruturas críticas. Segundo um comunicado da Presidência da República a que o VerAngola teve acesso, o dia ficou ainda marcado pela plantação de árvores na nova cidade por parte dos dois chefes de Estado.
Raízes históricas: de Agostinho Neto a Julius Nyerere
Falando aos presentes, João Lourenço recordou que as relações entre Angola e a Tanzânia têm raízes profundas na luta de libertação nacional, período em que os saudosos Presidentes Agostinho Neto e Julius Nyerere assumiram um compromisso comum com a liberdade, a dignidade e a autodeterminação dos povos africanos. É esta memória, forjada no fogo da resistência anticolonial, que confere à parceria angolano-tanzaniana uma densidade que poucas relações bilaterais no continente podem invocar.
O chefe de Estado sublinhou que os dois países desenvolvem relações assentes em bases sólidas, construídas ao longo de várias décadas a partir do Acordo Geral de Cooperação Económica, Científica, Técnica e Cultural, assinado a 25 de Agosto de 1981, e dos instrumentos que se lhe seguiram. Segundo o texto integral do discurso divulgado pela Presidência, esses acordos estabeleceram as condições necessárias para uma cooperação diversificada.
A visita de Estado da Presidente Samia Hassan a Angola, em Abril de 2025, e a realização em Luanda da terceira sessão da Comissão Bilateral, em Julho de 2026, representaram avanços importantes que culminaram com a assinatura de novos instrumentos nos domínios da Defesa, dos Transportes, das Telecomunicações e da Justiça.
Do papel aos factos: o desafio enunciado por Lourenço
João Lourenço foi directo: os compromissos existem, os instrumentos estão assinados, mas falta a execução. Esta franqueza do Presidente serve os interesses de Angola, porque um país que se respeita não se contenta com declarações protocolares; exige resultados mensuráveis para o seu povo.
«O nosso maior desafio agora é transformar os compromissos assumidos em projectos concretizados, em oportunidades de negócio e benefícios concretos para os nossos cidadãos», afirmou o chefe de Estado.
«É por isso fundamental reforçarmos os mecanismos de acompanhamento técnico dos instrumentos assinados, mobilizarmos os sectores responsáveis pela sua execução e envolvermos de forma mais activa as nossas comunidades empresariais», acrescentou.
«Precisamos, acima de tudo, de uma cooperação mais dinâmica, mais regular e mais orientada para resultados que sejam mensuráveis», defendeu.
Petróleo, gás e a Refinaria do Lobito no centro da agenda
No terreno económico, o Presidente foi claro sobre onde residem as prioridades nacionais. Angola dispõe de potencialidades que se complementam com as da Tanzânia, e cabe aos dois Estados transformar essa complementaridade numa verdadeira plataforma de produção, investimento, comércio e criação de riqueza.
«Neste quadro, consideramos prioritário aprofundar a cooperação nos sectores do petróleo e gás, sendo crucial, por isso, que passemos a efectuar uma troca de experiências mais pragmática e sólida neste domínio», declarou João Lourenço.
O chefe de Estado expressou igualmente o interesse do país em ver investidores tanzanianos no capital da Refinaria do Lobito, descrita como um projecto estratégico para a transformação económica de Angola. «Gostaríamos de ver a participação de investidores tanzanianos no capital da Refinaria do Lobito, um projecto estratégico para a transformação económica do nosso país e com potencial para gerar oportunidades de negócio a nível da nossa região, fortalecer as relações empresariais e contribuir para o reforço da segurança energética na zona austral do continente africano», afirmou.
A aposta na Refinaria do Lobito insere-se numa lógica mais ampla de valorização dos recursos nacionais, que passa pela transformação local dos minérios, pela agricultura e pela agro-indústria. João Lourenço revelou que merece particular atenção a proposta de investimento agrícola tanzaniano na região Leste de Angola, destinado a produzir bens de consumo necessários às populações. Como noticiou o Novo Jornal antes da partida do Presidente, Luanda pretende também integrar a Tanzânia em projectos logísticos estratégicos, como o Corredor do Lobito.
Do Atlântico ao Índico: ferrovia e soberania logística
Prosseguem esforços para estabelecer ligações aéreas directas entre Luanda e Dar es Salaam, bem como a ligação entre o Caminho-de-Ferro de Benguela e o sistema ferroviário Tanzânia-Zâmbia, o TAZARA. João Lourenço apontou que esta ligação «poderá aproximar o Oceano Atlântico ao Índico, facilitar o comércio intra-africano e ampliar o acesso aos mercados regionais e internacionais».
Para um país que reconstruiu das cinzas da guerra as suas ferrovias e portos, esta ambição tem um significado que ultrapassa a logística: é a afirmação de Angola como eixo de ligação entre duas costas africanas, soberana nos seus corredores e senhora do seu destino económico.
O Presidente destacou ainda as diligências das autoridades tanzanianas para reabrir a Missão Diplomática da Tanzânia em Angola, facto que, segundo disse, contribuirá indiscutivelmente para o reforço das relações bilaterais. No domínio tecnológico, apontou perspectivas promissoras de cooperação espacial com base na experiência angolana adquirida através do Angosat-2, além da educação, formação de quadros e saúde pública.
Reconhecimento mútuo e gratidão
No discurso, João Lourenço agradeceu a honra de participar no acto inaugural das infra-estruturas da cidade governamental e agradeceu à Presidente Samia Hassan por ter disponibilizado uma parcela de terreno para Angola construir em Dodoma a sede da sua Missão Diplomática.
«Estou convencido de que Angola e a Tanzânia dispõem de condições para transformar a sua amizade histórica numa parceria cada vez mais dinâmica, produtiva e orientada para resultados. É com esta convicção que reafirmo a inteira disponibilidade de Angola em trabalhar com a República Unida da Tanzânia na concretização dos compromissos assumidos, no aprofundamento da integração africana e na construção de um continente mais pacífico, próspero e desenvolvido», concluiu.
Perguntas frequentes
O que disse João Lourenço na Tanzânia?
Afirmou que o maior desafio da cooperação Angola-Tanzânia é transformar os compromissos assumidos em projectos concretizados, com benefícios mensuráveis para os cidadãos dos dois países.
Que instrumentos foram assinados entre Angola e a Tanzânia?
Foram assinados novos instrumentos nos domínios da Defesa, dos Transportes, das Telecomunicações e da Justiça, na sequência de entendimentos alcançados entre os dois Governos.
Que interesse tem Angola na Refinaria do Lobito?
Angola quer ver investidores tanzanianos no capital da Refinaria do Lobito, projecto estratégico para a transformação económica do país e para a segurança energética da África Austral.
Qual a ligação histórica entre Angola e a Tanzânia?
As relações têm raízes na luta de libertação nacional, com Agostinho Neto e Julius Nyerere unidos pelo compromisso com a liberdade e a autodeterminação dos povos africanos.
