Um alerta contundente sobre a cultura do adiamento atravessou o Atlântico esta semana. Em artigo de opinião publicado a 24 de outubro de 2026, o escritor santomense Hugulay Maia defendeu que São Tomé e Príncipe precisa de abandonar o habit de deixar para amanhã aquilo que já devia ter sido feito ontem, sem perder com isso a serenidade que define a alma do seu povo.
O texto, publicado pelo jornal digital telanon.info, parte da imagem dos pescadores de Angolares, que empurram as canoas ao ritmo das ondas, para construir uma reflexão sobre o futuro de um país que diz ter potencial para se transformar mas que, segundo o autor, se habituou a esperar. Para os angolanos que reconstruíram uma nação devastada pela guerra, a mensagem soa familiar: nenhum povo se desenvolve esperando que o futuro bata à porta.
O que diz o artigo de Hugulay Maia
Maia abre com uma declaração de amor à identidade santomense. Diz admirar profundamente a poetisa Dona Alda do Espírito Santo e o seu poema «Leve-leve», que Kalu Mendes transformou em música. Reconhece que a tranquilidade, a solidariedade e a proximidade com a natureza são riquezas que sociedades sufocadas pela pressa já perderam.
Mas traça depois uma fronteira que considera fundamental. «Uma coisa é respeitar o ritmo da vida; outra, bem diferente, é habituarmo-nos a adiar aquilo que precisa de ser feito», escreve o autor, segundo o artigo publicado pelo telanon. Uma coisa é esperar pela onda certa para lançar a canoa ao mar; outra é permanecer indefinidamente na praia, mesmo quando existem meios, condições e responsabilidade para avançar.
O diagnóstico é duro. Maia afirma que a cultura do adiamento ultrapassou o comportamento individual e instalou-se nas escolas, nos mercados, nas repartições públicas e na forma como se executam as políticas públicas. Há procedimentos que demoram mais do que deveriam, compromissos por cumprir, reuniões sem resultados e projetos que vivem eternamente na fase da intenção.
Em certos casos, parece que as coisas não são verdadeiramente feitas: vai-se fazendo. E, enquanto se vai fazendo, o tempo passa, as oportunidades diminuem e o futuro permanece à espera.
Porque é que esta reflexão interessa a Angola
A argumentação de Maia apoia-se em referências intelectuais sólidas. Invoca o sociólogo francês Pierre Bourdieu e o conceito de habitus para explicar como os atrasos tolerados se reproduzem de geração em geração até parecerem naturais. Recorre a Max Weber para mostrar que o desenvolvimento não depende apenas de recursos, mas das práticas e das instituições que orientam a vida coletiva. E cita o economista Joseph Schumpeter, que associou o progresso à inovação e à capacidade de combinar conhecimentos em novas soluções.
Aqui está a lição que importa a qualquer nação africana consciente da sua soberania. Os recursos naturais, por si só, não convertem-se em desenvolvimento. São Tomé tem biodiversidade extraordinária e uma posição geográfica relevante; Angola tem petróleo, diamantes, terras férteis e um povo que provou, na luta pela independência e na reconstrução depois da guerra civil, que sabe agir quando a hora exige. Em ambos os casos, o que falta nunca é o potencial: é a decisão de o transformar em escolas funcionantes, instituições sérias e oportunidades reais para os jovens.
Maia escreve sem poupar as lideranças. Defende uma administração pública que cumpra prazos, universidades que investiguem, empresas que invistam na qualificação dos trabalhadores e lideranças avaliadas «não apenas pelo que prometem, mas também pelo que efetivamente realizam». Rejeita, porém, a acusação coletiva ao povo: reconhece o sacrifício de professores, agricultores, pescadores e funcionários públicos que trabalham arduamente com recursos limitados.
A juventude e o futuro tecnológico
O autor avisa que a transformação não pode ser adiada por uma razão adicional: a juventude. Uma população jovem sem educação de qualidade, formação profissional e ferramentas tecnológicas transforma uma oportunidade numa fonte de frustração. E os mesmos telemóveis que distraem podem servir para aprender, criar negócios e divulgar produtos nacionais.
Maia relata ter revisitado a obra «A Física do Futuro», de Michio Kaku, e perguntado a si mesmo que lugar ocupará São Tomé e Príncipe num mundo movido pela inteligência artificial, pela robótica e pela computação. A sua resposta é clara: não é preciso estar na linha da frente de todas as tecnologias, mas seria profundamente triste chegar a 2100 e continuar a discutir problemas que já podiam ter começado a ser resolvidos hoje.
As guias de viagem sobre São Tomé já retratam o «leve-leve» como a filosofia que dita o ritmo de cada interação na ilha, o que mostra como o conceito se tornou a marca do país perante o exterior. Também iniciativas turísticas portuguesas vendem as ilhas precisamente com esse rótulo de lentidão paradisíaca. Maia não quer acabar com essa identidade; quer impedir que ela sirva de desculpa coletiva para a inação.
A pergunta que os filhos farão
As imagens mais fortes do texto são as da herança. Maia imagina os filhos e netos, daqui a algumas décadas, a perguntar: se os nossos pais sabiam o que era necessário fazer, porque esperaram tanto tempo para o fazer? E avisa que o tempo desperdiçado hoje não pertence inteiramente a quem o desperdiça; pertence também aos jovens que aguardam uma oportunidade e às crianças que frequentam escolas que precisam de melhorar.
«Cada decisão adiada, cada projeto abandonado e cada compromisso que não cumprimos podem representar mais um dia de espera na vida de alguém», escreve. Para quem espera por uma oportunidade de estudar ou trabalhar, esse dia não é uma unidade no calendário: é um pedaço de vida que não volta.
Termina com a imagem dos pescadores. Eles não podem ordenar às ondas que cheguem mais depressa, mas sabem que, quando surge a oportunidade, é preciso empurrar a canoa. A sabedoria está em distinguir os momentos de esperar dos momentos de agir. Angola conheceu essa sabedoria na hora de conquistar a independência e na hora de reconstruir o país. O «leve-leve» pode continuar a ensinar a viver, conclui Maia, mas nunca mais pode impedir de avançar.
O que é o «leve-leve»?
É uma expressão da cultura santomense que traduz uma forma tranquila e serena de viver, sem a pressão constante do relógio. Foi imortalizada no poema de Dona Alda do Espírito Santo e na música de Kalu Mendes.
Quem é Hugulay Maia?
É um escritor santomense que assinou o artigo de opinião publicado pelo telanon.info a 24 de outubro de 2026, no qual critica a cultura do adiamento institucional em São Tomé e Príncipe.
O que Maia propõe para São Tomé e Príncipe?
Propõe preservar a identidade cultural mas construir simultaneamente uma cultura de responsabilidade, com instituições que cumpram prazos, investimento na juventude e lideranças avaliadas pelos resultados efetivos.
