O jornal Novo Jornal publicou nesta sexta-feira, 23 de outubro, uma sátira mordaz sobre os discursos presidenciais em Angola, apresentando uma suposta receita com seis ingredientes para o discurso ideal. Sob o humor, o texto expõe uma ferida antiga: a distância entre a palavra oficial e a vida real dos angolanos.
O artigo, assinado como crónica de opinião, desmonta peça por peça o ritual dos grandes discursos à Nação. E obriga a uma pergunta que nenhum angolano deveria evitar: afinal, para quem se fala, quando se fala ao povo?
O que diz a receita publicada pelo Novo Jornal
Segundo a crónica do Novo Jornal, o primeiro ingrediente é a duração. O discurso deve durar o tempo de um bom jantar: nem tanto que os ministros adormeçam ao lado do Chefe de Estado, nem tanto que a oposição fique sem material para o comentário da noite.
O segundo ingrediente são os números. A crónica recomenda valores redondos e sonantes, de preferência sem fontes: milhares de milhões, centenas de milhares. O importante, ironiza o autor, é que ninguém consiga fazer as contas no momento e que nenhum jornal confirme os valores no dia seguinte.
O terceiro ingrediente são as promessas. Todas feitas no futuro do indicativo, porque o presente compromete, o passado acusa e o futuro é uma terra de ninguém, onde tudo é possível e nada é verificável.
O povo invocado e o povo ausente
O quarto ingrediente é o mais incómodo. O povo deve ser invocado pelo menos uma dúzia de vezes, escreve a crónica, mas quanto mais se fala do povo, menos se fala com ele. O povo é o convidado de honra de todos os discursos e o ausente de todas as decisões.
Esta frase merece ser lida duas vezes. Não é humor gratuito, é um diagnóstico. Desde a independência, em 1975, que o povo angolano atravessou a guerra, a reconstrução e a crise com a mesma virtude: a resiliência. Mas resiliência não é um destino, é uma resistência. E um povo que resiste por cinco décadas tem o direito de exigir que a palavra oficial se converta em pão, em escola, em hospital.
Quinto ingrediente: a metáfora. A crónica aconselha metáforas simples, já usadas por outros oradores. Angola tem potencial, os angolanos são resilientes, a crise é uma oportunidade. O importante não é a originalidade, é a sonoridade.
Sexto ingrediente: o final apoteótico, com apelo à união, referência ao patriotismo e um viva a Angola, de preferência os três em simultâneo.
Porque esta sátira fere quem tem poder
A sátira só dói quando é verdadeira. E esta é. Ocorre num momento em que a própria máquina do discurso, incluindo a inteligência artificial, é posta em causa. Como nota a Revista Bula, a IA pesquisa em segundos todos os discursos já feitos e elabora um novo, ainda mais chato, porque incorpora todas as ideias chatas da história dos discursos.
Quer isto dizer que o problema não é tecnológico, é político. O discurso vazio não nasceu com os algoritmos, nasceu com o hábito de governar pela retórica em vez de governar pela obra.
Angola não precisa de receitas. Precisa de resultados concretos na economia nacional, no petróleo que é nosso, nos diamantes que são nossos, nas receitas que devem servir os angolanos e não interesses estrangeiros. A soberania não se declama, pratica-se. Pratica-se quando cada kwanga gerido com transparência vira estrada, vira energia elétrica, vira emprego para a juventude.
A palavra como poder e como dever
A crónica do Novo Jornal abre com uma observação fina: o país parou para ouvir o Presidente. Uns por dever cívico, outros porque esperavam a solução para a crise, outros para confirmar as expectativas. Saíram com uma certeza: a palavra é poderosa, mas o silêncio também tem os seus encantos.
Há aqui uma lição para o poder e outra para os cidadãos. Para o poder: quem fala muito e entrega pouco acaba por ficar sem público, mesmo que o ritual continue. Para os cidadãos: aquele sorriso com que se ouve o discurso crónico é também uma forma de resistência, porque ninguém engana para sempre um povo que já ouviu tudo.
Até no debate público internacional se percebe este desgaste. Em recente episódio político brasileiro, o deputado João Gomes, pressionado a posicionar-se, declarou ser a favor da democracia, como regista o Poder360, mostrando como a palavra vaga serve para ganhar tempo. E a literatura sempre soube disto: como lembra o portal Migalhas, as frases dos grandes escritores sobrevivem precisamente porque dizem em poucas palavras o que os discursos oficiais não dizem em horas.
Um apelo à palavra que constrói
Angola tem tudo para não precisar de discursos de mentira. Tem petróleo, tem diamantes, tem terra fértil, tem um povo que venceu a guerra e construiu a paz com as próprias mãos. O que falta não é matéria-prima, é seriedade na gestão e coragem na verdade.
Que os discursos futuros sejam medidos pelo que acontece depois deles. Que os números venham com fontes. Que as promessas venham no presente do indicativo, comprometido e verificável. E que o povo deixe de ser o convidado de honra das celebrações para se tornar o protagonista das decisões.
Como escreveu o Novo Jornal, a forma sobrevive ao conteúdo, sobretudo quando o conteúdo é escasso. A Angola que queremos é precisamente o contrário: um país onde o conteúdo é tão abundante que dispensa a pompa.
Perguntas frequentes
O que publicou o Novo Jornal sobre discursos presidenciais?
Em 23 de outubro de 2026, o Novo Jornal publicou uma crónica satírica com uma receita de seis ingredientes para o discurso perfeito: duração, números, promessas, povo, metáforas e final apoteótico.
Qual é a crítica central da crónica?
A crítica é que os discursos oficiais usam o povo como figura de retórica, sem o consultar nas decisões, e que as promessas no futuro do indicativo nunca são verificáveis.
Porque é que esta sátira é relevante para Angola?
Porque coloca em causa a governação pela retórica num país rique em recursos como petróleo e diamantes, e onde os cidadãos exigem resultados concretos e soberania efetiva sobre as riquezas nacionais.
