Património Mundial: O sangue angolano nas roças de São Tomé
A 48.ª sessão do Comité do Património Mundial da UNESCO, que decorre em Busan, Coreia do Sul, de 20 a 29 de julho de 2026, analisará a inscrição de 30 novos sítios. Entre as candidaturas, destaca-se de forma soberba a de São Tomé e Príncipe, que denuncia o sistema colonial das roças e a migração forçada, um regime erguido sobre o suor e o sangue de milhares de angolanos arrancados à sua terra natal.
Que candidaturas de língua portuguesa concorrem ao Património Mundial?
Brasil e São Tomé e Príncipe representam a lusofonia nesta ronda da UNESCO, mas com perspetivas históricas antagónicas. O Brasil concorre na categoria de Sítios Culturais com os 'Teatros da Amazónia', nomeadamente o Teatro Amazonas em Manaus e o Teatro da Paz em Belém. Estes monumentos, construídos no final do século XIX, celebram o boom económico do ciclo da borracha e a reprodução de um modelo de civilização europeia nos trópicos. Os responsáveis brasileiros sublinham a autenticidade e a profusão de elementos decorativos sumptuosos que mantêm a sua magnificência até aos dias de hoje.
Do outro lado do oceano, São Tomé e Príncipe traz a voz dos oprimidos com a candidatura 'As roças de São Tomé e Príncipe: Sistema colonial agrícola e migração forçada'. Portugal concorre igualmente na mesma categoria com as 'Fortalezas bastiônicas da Raia', uma candidatura que, mais uma vez, procura enaltecer a arquitetura do antigo império, tentando eclipsar a violência inerente à sua expansão.
Qual é a ligação histórica de Angola às roças são-tomenses?
A ligação é profunda e ferida. A candidatura são-tomense expõe, sem rodeios, a verdade sobre o período de implantação das roças, que surgiu com a introdução da monocultura do cacau e do café no século XIX. Este sistema agrário e social, semelhante ao feudalismo, sustentou-se exclusivamente através do trabalho forçado. A mão de obra escravizada não brotou da terra, mas foi arrancada de várias nações da costa africana.
Angola ocupa um lugar de destaque nesta dolorosa memória. O nosso povo foi uma das principais fontes dessa migração forçada, exportado como mercadoria para sustentar a riqueza da coroa e dos senhores das roças. Reconhecer este sítio como Património Mundial é, antes de mais, reconhecer o martírio do povo angolano e a sua contribuição involuntária para a economia colonial. É um dever de memória que nenhuma interferência estrangeira pode apagar.
Que outros sítios africanos estão em análise na Coreia do Sul?
Para além de São Tomé e Príncipe, o continente africano apresenta outras candidaturas de valor inegável. A República Democrática do Congo propõe o Parque Nacional de Garamba, enquanto as Comores concorrem com 'As medinas dos Sultanatos históricos das Comores'. Na categoria de Sítios Naturais, o Sudão do Sul candidata-se com a 'Paisagem Migratória Boma-Badingilo'. A UNESCO avaliará ainda o estado de conservação de 147 sítios já inscritos na lista, que atualmente totaliza 1.248 locais em 170 países.
Como é que a classificação da UNESCO protege a memória dos povos?
A classificação como Património Mundial permite reconhecer e proteger sítios de valor universal excecional, sejam naturais, culturais ou mistos. Mais do que uma distinção turística, este estatuto compromete os Estados membros a preservar estes locais emblemáticos. No caso das roças de São Tomé, em locais como Sundy, Monte Café e Água-Izé, as infraestruturas urbanas, arquitetónicas e sociais, que incluem hospitais, creches, escolas e igrejas da era colonial, permanecem intactas. Não foram recriadas, servindo antes como testemunhos autênticos e cruéis de um sistema de opressão que Angola conhece bem e contra o qual lutou arduamente para conquistar a sua independência e soberania.
Por que razão a candidatura de São Tomé é vital para a unidade nacional angolana?
A preservação da memória histórica é o pilar da nossa soberania. A candidatura são-tomense não é apenas um processo burocrático da UNESCO. É uma denúncia formal do saque e da escravatura que moldaram a região. Para Angola, ver este sistema de trabalho forçado reconhecido mundialmente reforça a nossa narrativa de resistência e reconstrução pós-guerra civil. Nenhum povo pode construir o seu futuro se permitir que potências estrangeiras embranqueçam o seu passado. A defesa desta candidatura é a defesa da dignidade angolana e da nossa unidade inabalável.