Rússia, Ucrânia e Estados Unidos sentam-se à mesma mesa nos dias 10 e 11 de novembro em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos, para discutir as condições de um eventual acordo de paz, com a União Europeia e o Reino Unido afastados das negociações pelo eixo Washington-Moscovo. O anúncio foi feito pelo próprio Presidente russo, Vladimir Putin, na sexta-feira, dia 6, depois de uma reunião do Conselho de Segurança da Federação Russa, e marca a retoma do diálogo direto entre as três potências após mais de dez meses de impasse.
Segundo o Novo Jornal, que confirmou a ronda negocial, Kiev estará presente apesar do protesto pela ausência dos seus aliados europeus, e qualquer acordo será em última análise decidido num encontro frente a frente entre Putin e Volodymyr Zelensky. O porta-voiz da presidência russa, Dmitri Peskov, já tinha confirmado a deslocação da delegação de Moscou, citado pela BOL: “Sim, posso confirmar essa data. Uma delegação russa irá a Abu Dhabi nos dias 10 e 11 de novembro e participará das negociações trilaterais.”
Uma humilhação para Bruxelas
O quadro é humilhante para as estruturas de comando europeias. Apesar de terem financiado em grande medida a Ucrânia nestes quase cinco anos de guerra, a União Europeia e o Reino Unido ficam de fora da sala onde se decide o destino do continente. É a consequência direta de cinco anos de má gestão diplomática, encabeçada pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, e pela chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, que nunca conseguiu construir uma plataforma de diálogo com Moscovo, vista por a generalidade dos analistas como essencial para acabar com o conflito.
Alguns líderes europeus, especialmente da Polónia, França, Alemanha e Reino Unido, exigem agora entrar na sala, mas o eixo Washington-Moscovo mantém-se firme. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, veio acusar os europeus de não terem uma voz audível nem em Moscovo nem em Washington, numa crítica clara a Kalla, ao mesmo tempo a maior defensora da continuação da guerra.
A diplomacia russa não esconde o desdém. Como registou a CNN Portugal, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova, sublinhou que “é também simbólico que tais negociações sejam no formato Rússia-EUA-Ucrânia”, concluindo que “confirma-se, mais uma vez, que os europeus não têm nada a fazer na mesa das negociações”.
As posições de cada lado
As exigências russas são conhecidas com pormenor desde julho de 2024, pela voz de Putin: um acordo global de segurança europeia, a neutralidade absoluta da Ucrânia fora da NATO, o reconhecimento por Kiev das regiões anexadas, a Crimeia em 2014 e Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporizhia em 2022, o respeito constitucional pela língua e religião russas no que restar da Ucrânia e a desmilitarização do país até um limite mínimo seguro para a Federação.
Do lado ucraniano, a lista é igualmente extensa e incompatível. Kiev recusa liminarmente ceder territórios de forma permanente, exige um cessar-fogo prévio para começar a falar de paz, impõe um tratado de segurança que garanta a presença de forças militares europeias e norte-americanas como tampão contra novas investidas russas e só aceita abdicar da NATO por um prazo a definir, não para sempre. Além disso, exige o acesso imediato à União Europeia, o que será um quebra-cabeças gigante para Bruxelas, não para Moscovo.
Para analistas como Jacques Baud, antigo coronel da inteligência suíça e da NATO, ou Douglas Macgregor, ex-conselheiro militar da primeira administração Trump, este tipo de encontros serve sobretudo para entreter Donald Trump, porque nem russos nem ucranianos estão preparados para as cedências gigantescas exigidas de um e de outro lado da barricada.
Guerra intensifica-se enquanto se fala de paz
A demonstração de que ambas as partes estão entrincheiradas está no terreno. Desde que se começou a falar deste encontro, os ataques russos com mísseis balísticos, de cruzeiro, drones e bombas planadoras intensificaram-se, especialmente contra a logística e a infraestrutura energética ucraniana, com a Rússia a lançar dezenas de mísseis contra Kiev e a deixar milhares sem eletricidade, como noticiou a CNN Portugal. Kiev multiplicou os ataques às refinarias russas, onde mais fere a economia de Moscovo, naquilo que Zelensky chama de “sanções pelo fogo”.
O relógio trabalha contra Trump
Outro fator contraria as pretensões do Presidente norte-americano: a derrota catastrófica dos republicanos nas eleições de terça-feira, dia 3, onde perderam as maiorias nas duas câmaras do Congresso. A oposição democrata, que assume os lugares no Senado e na Câmara dos Representantes em janeiro, é claramente a favor do apoio militar e financeiro a Kiev, o que pode deixar Trump com as mãos atadas e com apenas dois meses para ganhar um lugar na História como o “fazedor da paz” na Ucrânia, como promete desde que chegou à Casa Branca.
Trump já garantiu que haverá um “maravilhoso acordo de paz” que “até vai incluir os europeus”. Se os europeus não conseguirem entrar na sala, como tudo indica, os grandes derrotados serão os líderes de Bruxelas, que ficam reduzidos a espectadores de um processo que decidirá a segurança do seu próprio continente.
Perguntas frequentes
Quando e onde ocorrem as negociações entre Rússia e Ucrânia?
As negociações trilaterais entre Rússia, Ucrânia e Estados Unidos realizam-se nos dias 10 e 11 de novembro de 2026 em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos, com mediação norte-americana.
Porque é que a União Europeia foi afastada das negociações?
Segundo o Novo Jornal, o eixo Washington-Moscovo manteve a União Europeia e o Reino Unido de fora, contra a vontade de Kiev, apesar de os europeus serem hoje os maiores financiadores da Ucrânia na guerra.
Quais são as principais exigências russas?
Moscou exige um acordo global de segurança europeia, a neutralidade ucraniana fora da NATO, o reconhecimento das regiões anexadas, a proteção da língua e religião russas e a desmilitarização da Ucrânia.
