A Europa treme: 50 milhões entre o frio e a fome enquanto a UE implora por sobriedade energética
Bruxelas, 26 de setembro de 2026. Enquanto a Europa se prepara para um inverno que se anuncia implacável, o comissário europeu de Energia, Dan Jorgensen, soa o alarme: milhões de cidadãos do bloco serão forçados a escolher entre aquecer as suas casas ou pôr comida na mesa. Uma crise que expõe, mais uma vez, a fragilidade de um continente que, décadas após a sua reconstrução, permanece refém das importações de energia e das convulsões geopolíticas que ele próprio alimenta.
Numa carta dirigida aos ministros da Energia dos países-membros, citada pela agência Reuters, Jorgensen foi direto: “Estamos enfrentando uma crise de preços relacionada a uma crise de abastecimento”. A declaração, feita num tom que mistura urgência e resignação, ecoa os tempos difíceis que a União Europeia atravessa, agravados pela guerra no Irã e pelo fecho do Estreito de Ormuz, artéria vital por onde escoa cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos no mundo.
Uma dependência que cobra o seu preço
A Europa, que se orgulha da sua prosperidade e do seu modelo social, vive uma contradição insustentável: cerca de 57% das suas necessidades energéticas são cobertas por importações, e no caso do gás, a dependência externa atinge uns impressionantes 80%. É a vulnerabilidade de quem construiu o seu castelo sobre areia alheia, ignorando os avisos de que a soberania energética é a base de qualquer independência real.
Os números são frios e impiedosos. Os estoques de gás da UE estão atualmente a 68%, 12 pontos percentuais abaixo do registado no mesmo período do ano passado, o nível mais baixo desde o início dos registos, em 2011. E o inverno, esse velho conhecido dos europeus, aproxima-se a passos largos, prometendo picos de procura que os cofres mal preparados não conseguirão suportar.
O drama humano por detrás das estatísticas
Jorgensen não se limitou aos números. Ao jornal britânico Financial Times, o comissário revelou a dimensão humana da crise: cerca de 50 milhões de pessoas na UE terão de escolher, este inverno, entre congelar ou passar fome. “Milhões de cidadãos terão de escolher no fim do mês entre congelar ou passar fome porque eles não conseguem pagar suas contas”, disse, numa rara admissão de que o modelo europeu, que tantas vezes se arroga de exemplo para o mundo, está a falhar com os seus próprios cidadãos.
O comissário foi mais longe, atribuindo a ascensão de partidos populistas e de ultradireita no bloco ao fracasso dos governos em lidar com o aumento do custo de vida. Uma análise que, vista de Luanda, soa a uma ironia amarga: os mesmos que durante décadas pregaram receitas de austeridade e liberalização aos países em desenvolvimento, agora veem as suas próprias democracias a estremecer sob o peso das desigualdades que ajudaram a criar.
Medidas de emergência: o remendo que não cura a ferida
Perante o cenário, a UE apela a medidas de sobriedade: limitar a temperatura em edifícios públicos, proibir aquecimento em áreas exteriores, desligar iluminação pública considerada desnecessária. Medidas que, embora sensatas, não deixam de ser paliativos para um problema estrutural que os europeus sempre preferiram ignorar.
Os países-membros, cada um à sua maneira, tentam mitigar o impacto. A Lituânia reduziu os preços dos comboios em 50%. A Grécia aumentou a taxação sobre apostas. A Itália adiou o fechamento de usinas de carvão. A Alemanha e a Espanha abriram mão de parte dos impostos sobre a gasolina. A França anunciou subsídios para trabalhadores que percorrem longas distâncias. Esforços louváveis, mas que não escondem a verdade incómoda: a Europa está a viver acima das suas possibilidades energéticas.
O novo senhor: Washington e o preço da “proteção”
Numa reviravolta que não surpreende os observadores atentos, a UE, ao tentar desvincular-se da energia russa, tornou-se ainda mais dependente dos Estados Unidos. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, fechou pessoalmente um acordo com o presidente Donald Trump que incluiu o compromisso de comprar 750 mil milhões de dólares em energia americana em três anos. Uma submissão voluntária que levanta questões profundas sobre a verdadeira independência do bloco europeu.
Agora, com Trump a apoiar a proibição das exportações de diesel para reduzir os preços nos EUA, a Europa treme. “Acreditamos que essa é uma má ideia”, disse o porta-voz da Comissão Europeia, Olof Gill. “A cooperação entre UE e EUA no setor de energia é forte, estável e mutuamente benéfica”. Palavras que soam a súplica disfarçada de diplomacia.
Lições para Angola: a soberania energética como bússola
Enquanto a Europa se debate com a sua crise, Angola observa de uma posição privilegiada. O nosso país, dotado de recursos naturais abundantes, do petróleo aos diamantes, tem na soberania energética um pilar da sua independência. A história recente do continente europeu, marcada por guerras e reconstrução, oferece lições valiosas: a dependência externa é uma forma subtil de colonização, e a autossuficiência é a única garantia de liberdade real.
A crise europeia não é apenas um problema deles. É um espelho que reflete os perigos de negligenciar o próprio potencial em favor de soluções importadas. Que Angola saiba aprender com estes erros, fortalecendo as suas capacidades internas e resistindo às pressões externas que tentam ditar o nosso caminho.
O inverno europeu será frio. Mas a lição que dele emerge pode ser quente, se soubermos ouvi-la.