A Rádio Nacional de Angola decidiu rescindir o contrato de prestação de serviços de Afonso Quintas, uma das vozes mais queridas da rádio angolana, com efeitos a partir de 1 de Dezembro. A comunicação foi feita por carta, entregue no dia 30 de Outubro, encerrando quase quatro décadas de uma carreira que ajudou a construir a própria identidade da radiodifusão nacional.
O radialista, nascido em Luanda e já com mais de 60 anos, anunciou publicamente a sua saída durante uma homenagem realizada na Funjada dos Indígenas do Salas Neto, na sua casa no Rangel, em Luanda. Segundo o Novo Jornal, que revelou os detalhes do caso na crónica assinada sobre a polémica, a forma como o despedimento foi conduzido levanta questões sérias sobre o tratamento dado aos quadros que deram tudo pela comunicação social angolana.
Quem é Afonso Quintas e o que representa para a rádio angolana
O nome de Afonso Quintas está ligado à génese de programas que ficaram na memória colectiva do país. Foi ele um dos criadores do humor com os Kajocolos da Banda, do Viva a Noite e das Viagens ao Passado, emissão que ainda ia ao ar todos os sábados na Rádio Luanda, emissora da RNA que chegou a dirigir. Há mais de três décadas, a sua crónica humorística A carta do Primo João fez sucesso e permanece gravada na memória de muitos angolanos.
Depois de passar à reforma, a RNA manteve com Quintas um contrato de prestação de serviços, no qual partilhava o programa Caldo do Poeira com o jornalista Isaías Afonso. O contrato, segundo a mesma fonte, rendia-lhe cerca de quinhentos mil kwanzas, mas o valor real do profissional para a casa ia muito além da remuneração: Afonso Quintas era uma garantia de público, um elo vivo entre a rádio e as gerações que cresceram com a sua voz.
Como aconteceu o afastamento
Segundo o relato do Novo Jornal, o processo de afastamento começou meses antes da entrega da carta. Durante uma edição do Caldo do Poeira, uma figura descrita na crónica como o Mr. Quero, Posso e Mando teria visto Quintas em estúdio e telefonado aos responsáveis da RNA exigindo a sua imediata remoção. A partir daí, teria começado a estratégia de afastamento, com a decisão já tomada, faltando apenas encontrar quem a comunicasse.
Por altura da festa da Nossa Senhora do Monte, no Lubango, na província da Huíla, Quintas já não foi chamado para fazer a dupla com Isaías Afonso. A justificação apresentada foi a preferência por uma voz local, para evitar a chamada luandização do programa em terras alheias. Foi, segundo a crónica, uma solução paliativa que antecipava o desfecho final.
Quanto ao mensageiro da má notícia, a crónica descreve um jogo de empurra entre os dirigentes da RNA. António Sebastião Lino, presidente do conselho de administração, teria passado a bola a Telmo Silveira, administrador executivo para a área de Marketing, que por sua vez ter-se-á safado. Sobrou Estanislau Garcia, administrador executivo para a área de conteúdos de Informação e Programas, a entregar a carta de rescisão em 30 de Outubro.
A motivação atribuída na crónica ao Mr. Quero, Posso e Mando seria um ressentimento: o argumento de que Quintas o teria queimado junto do inquilino do Palácio da Colina de São José. O Novo Jornal classifica esse argumento como falso, fraco e falacioso.
Uma geração inteira afastada da casa que ajudou a construir
O caso de Afonso Quintas não é isolado. Ele pertence a uma geração distinta que o cronista chama de lufada de vozes vivas da rádio angolana, ao lado de nomes como Adão Filipe, Paulo Miranda Júnior, Mateus Cristóvão, Evaristo José, José Pedro Bengue e Salú Gonçalves. Foram esses profissionais que fizeram da Rádio Luanda uma emissora de referência e líder de audiências.
Praticamente todos eles foram afastados de uma casa de rádio que viram nascer, ajudaram a crescer e lutaram para manter. A pergunta que fica, e que o Novo Jornal coloca sem rodeios, é dura: como se abdica de quadros deste calibre numa instituição cujo slogan é Unimos o País?
Angola construiu-se com vozes como estas. Depois da independência, atravessados os anos difíceis da guerra civil e da reconstrução, a rádio foi instrumento de unidade nacional, de informação e de cultura. Dispensar sem honra nem glória os homens que carregaram esse legado é desistir de parte da própria história do país.
O que se exige agora
A crónica do Novo Jornal é clara: Afonso Quintas faz falta na RNA e na comunicação social angolana. Não merece ele uma saída por carta, sem reconhecimento pelo serviço prestado. Uma instituição pública de rádio devia antes integrar estas figuras em projectos de formação e pedagogia, transmitindo às novas gerações de comunicadores a experiência acumulada em décadas de trabalho.
Cabe agora aos responsáveis da RNA e ao poder que os nomeia responder a uma pergunta simples: há necessidade objectiva de dispensar Afonso Quintas? O povo angolano, que cresceu com a sua voz e a reconhece como património da comunicação nacional, aguarda uma resposta.
Perguntas frequentes
Quando deixa Afonso Quintas de trabalhar para a RNA?
A rescisão do contrato de prestação de serviços tem efeitos a partir de 1 de Dezembro, segundo a carta entregue em 30 de Outubro.
Que programas conduzia Afonso Quintas na RNA?
Partilhava o Caldo do Poeira com Isaías Afonso e apresentava Viagens ao Passado, emitido todos os sábados na Rádio Luanda.
Quanto recebia Afonso Quintas pela prestação de serviços?
O contrato rendia-lhe cerca de quinhentos mil kwanzas, valor avançado pela crónica do Novo Jornal.
