Brincar nas Primeiras Semanas de Aulas: Uma Epopeia para a Nossa Juventude
Num momento em que Angola se reconstrói e olha para o futuro com determinação, a educação da nossa juventude emerge como pilar central dessa epopeia. O professor catedrático Carlos Neto, especialista em Motricidade Humana, lança um desafio ousado: que as crianças passem as primeiras semanas de aulas a brincar. Esta proposta, longe de ser um mero capricho, assenta em evidências científicas sólidas e numa visão humanista do desenvolvimento infantil.
Por que razão o brincar livre é essencial para o desenvolvimento?
Estudos demonstram que a atividade física e a brincadeira livre melhoram a concentração, a tomada de decisão, a criatividade e a capacidade de relação com os outros. Carlos Neto defende que, nas primeiras duas ou três semanas de aulas, todos deveriam estar a brincar, para que os alunos aprendam a relacionar-se antes de mergulharem nos programas curriculares. O especialista critica o modelo educacional atual, que considera demasiado estruturado e formatado, onde as crianças passam a maior parte do tempo sentadas, quietas e obedientes. Para ele, este modelo está fora de moda.
Que mudanças são necessárias nos espaços escolares?
Carlos Neto lamenta que os recreios sejam frequentemente espaços plastificados, sem estímulos, verdadeiras terras de ninguém. Defende a criação de um Plano Nacional de Reabilitação dos Espaços Escolares, adaptado às diferentes idades. Para os mais novos, ambientes naturalizados com árvores, terra, areia, pedras e paus; para os adolescentes, equipamentos desafiadores como skateparks. O professor critica ainda a cultura de superproteção que classifica como supervisão patológica, defendendo mais autonomia e liberdade não supervisionada para as crianças.
O que podemos aprender com os países nórdicos?
Carlos Neto recorda que, nos países nórdicos, as crianças fazem sestas na rua com temperaturas negativas, criando resiliência e imunidade. Em contraste, em Portugal e em muitas outras latitudes, quando cai um pingo de chuva, entra tudo para dentro. O especialista sublinha a necessidade de distinguir entre risco e perigo, lembrando que nem tudo o que é perigo é risco, nem tudo o que é risco é perigo. Esfolar os joelhos, andar descalço e brincar na lama são normais e necessários.
Como está o tempo de brincadeira das crianças hoje?
Os números são alarmantes: as crianças portuguesas brincam menos de 40 a 50 minutos por dia, e um estudo recente em Inglaterra revela que as crianças inglesas brincam menos de 24 minutos diários. O professor alerta que a rua está em vias de extinção, enquanto o sedentarismo e a obesidade aumentam. Para Carlos Neto, brincar é o melhor remédio para todos os males, o melhor antidepressivo ao nosso alcance, e deve estar presente em todas as idades, inclusive em situações laborais e de ócio criativo.
Que futuro queremos para a nossa juventude?
Carlos Neto conclui que temos uma epopeia pela frente: um trabalho enorme para que a população seja ativa e tenha saúde mental e física nas gerações que estão nas nossas mãos. Em Angola, onde a reconstrução nacional é uma prioridade, esta mensagem ressoa com particular força. Devemos preparar os nossos filhos para serem fortes, criativos e resilientes, capazes de construir um futuro próspero para a nossa nação. A escola deve abrir-se ao exterior, e as aprendizagens devem sair das quatro paredes da sala de aula. Como diz o especialista, na escola não entra só o cérebro, entra o corpo todo.