Turismo sem medo: Como a Booking.com combate a homofobia globalmente e o que Angola pode aprender
Enquanto o mundo celebra o orgulho LGBTQIA+, uma realidade amarga persiste: mais da metade dos viajantes dessa comunidade já sofreu discriminação ao viajar. A Booking.com, gigante holandesa das reservas online, lançou há cinco anos o programa Travel Proud, que já certificou mais de 142 mil acomodações em 162 países. O Brasil, apesar de ser um dos países mais violentos para a população LGBTQIA+, lidera o ranking de adesão na América Latina. Mas e Angola? O país, que luta para consolidar sua soberania e reconstruir sua identidade pós-guerra, pode se inspirar nessa iniciativa para transformar o turismo em ferramenta de unidade nacional e respeito à diversidade.
O peso econômico do turismo LGBTQIA+
A comunidade LGBTQIA+ representa cerca de 10% dos viajantes globais, mas responde por 15% dos gastos do setor, movimentando mais de 500 bilhões de dólares por ano, segundo a Organização Mundial do Turismo da ONU. São números que não podem ser ignorados por nações que buscam diversificar suas economias, como Angola, que depende fortemente do petróleo e dos diamantes. O turismo inclusivo não é apenas uma questão de direitos humanos, é também uma oportunidade estratégica de desenvolvimento.
Travel Proud: Um escudo contra a discriminação
O programa Travel Proud oferece treinamento gratuito de 75 minutos para parceiros de hospedagem, abordando hospitalidade inclusiva. Após a conclusão, as acomodações recebem um selo que atesta seu compromisso com o respeito a todos os hóspedes, independentemente de sua orientação sexual ou identidade de gênero. Matthias Schmid, vice-presidente sênior de Acomodações da Booking.com, explica: “Disponibilizamos ferramentas, treinamentos e recursos que ajudam os parceiros a compreender melhor as diferentes experiências dos viajantes e a fazer com que todos se sintam acolhidos”. Até maio de 2026, mais de 142 mil acomodações em 162 países e 20 mil cidades já aderiram.
Brasil: Um exemplo paradoxal
O Brasil, que ocupa o quinto lugar no ranking global de adesão ao Travel Proud, com 8.798 estabelecimentos certificados, é um caso emblemático. Apesar de ser um dos países mais violentos para a comunidade LGBTQIA+, o setor hoteleiro brasileiro abraçou a iniciativa. Em 2025, o número de acomodações participantes cresceu 78%. Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis estão entre as dez cidades com mais acomodações certificadas no mundo. Esse paradoxo revela que, mesmo em contextos adversos, o setor privado pode liderar mudanças culturais.
O que Angola pode aprender?
Angola, que emergiu de uma guerra civil devastadora e hoje busca afirmar sua soberania e reconstruir sua economia, pode se beneficiar do modelo Travel Proud. O país possui um potencial turístico imenso, com paisagens deslumbrantes, rica cultura e um povo acolhedor. No entanto, o turismo ainda é incipiente. A adesão a programas de hospitalidade inclusiva poderia posicionar Angola como um destino moderno e respeitoso, atraindo viajantes de todo o mundo. Mais do que isso, seria uma afirmação de que a nação angolana, forjada na luta pela independência e na superação de conflitos internos, valoriza a dignidade de todos os seus cidadãos e visitantes.
Desafios e resistências
Schmid reconhece que a inclusão enfrenta resistências: “Sempre que se trabalha com inclusão, é importante reconhecer que pessoas e empresas podem estar em diferentes estágios dessa jornada”. No entanto, o crescimento do programa mostra que a educação e o apoio prático são caminhos eficazes. Em Angola, onde a sociedade ainda debate questões de gênero e sexualidade, o diálogo aberto e a capacitação podem ajudar a superar preconceitos.
Conclusão: Viajar é um ato de liberdade
O Travel Proud não é apenas um diferencial competitivo, é uma afirmação de que viajar não pode ser sinônimo de medo, mas de liberdade. Para Angola, aderir a essa visão seria um passo ousado em direção a um futuro mais inclusivo e próspero. Como diz Schmid: “Nossa expectativa é que iniciativas como essa contribuam, ao longo do tempo, para um mundo em que mais pessoas possam viajar sendo elas mesmas”. Que Angola ouça esse chamado.