Lula e o PIB: 42 encontros revelam a dança do poder na reta final
Num movimento que mistura pragmatismo eleitoral e a eterna tensão entre o Palácio do Planalto e o capital, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acelerou o diálogo com empresários e banqueiros nos meses que antecedem o primeiro turno. Até 24 de setembro, o presidente somou 42 compromissos com o setor produtivo e financeiro em 2026, o segundo maior total do seu terceiro mandato, embora bem distante dos 97 encontros registrados em 2024.
A reta final da campanha à reeleição, contudo, não esconde as cicatrizes de um relacionamento conturbado. Entre críticas públicas ao Banco Central, questionamentos sobre o arcabouço fiscal e a sombra de escândalos financeiros, o chefe de Estado tenta reatar pontes com aqueles que, não raro, o veem com desconfiança.
Quem são os empresários que mais frequentaram o Planalto?
O levantamento, baseado na agenda oficial e em dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, revela uma hierarquia clara de influência. Josué Gomes, da Coteminas e da Fiesp, lidera com seis reuniões, seguido por Francisco Gomes Neto, da Embraer, com cinco. Nomes como Alexandre Baldy (BYD Brasil), Rubens Ometto (Cosan) e Wael Sawan (Shell) aparecem com dois encontros cada, num leque que atravessa setores estratégicos da economia.
No campo financeiro, Luiz Carlos Trabuco Cappi, do Bradesco, é o banqueiro mais assíduo, com sete encontros individuais, à frente de André Esteves, do BTG Pactual, com cinco. Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Mario Opice Leão, do Santander, completam a lista com quatro cada.
O caso Vorcaro e as sombras do mercado
É justamente o caso Vorcaro que reacendeu o noticiário em torno de André Esteves. Mensagens obtidas pela imprensa mostram o banqueiro preso desde março acusando Esteves de tentar travar a venda do Master ao BRB. As conversas expõem uma rivalidade antiga, movida por interesses concorrentes e pela disputa por espaço político em Brasília.
As idas de Vorcaro ao Planalto só vieram a público após a liquidação do Master, em novembro de 2025. Em três das quatro visitas do banqueiro à sede da Presidência, não há registros sobre com quem ele se encontrou, um silêncio que alimenta especulações.
Esteves, por sua vez, tem um histórico bem mais longo com Lula. A proximidade remonta aos dois primeiros mandatos do petista e seguiu firme no governo Dilma, quando o BTG operou em negócios atrelados a projetos federais. Foi cortada em 2015, com a prisão do banqueiro na Lava Jato, e retomada no atual mandato, mas 2025 marcou novo racha, com críticas públicas de Esteves que teriam irritado o presidente.
Jantares que marcaram o semestre
Até o primeiro semestre, os encontros eram esparsos, e a queixa do setor produtivo sobre a hesitação do presidente tornou-se mais evidente com a aproximação da corrida eleitoral. Em 27 de agosto, durante sabatina na TV Globo, Lula disse não estar preocupado com o crescimento da dívida pública, classificando seu governo como responsável do ponto de vista fiscal.
Quatro dias depois, em 31 de agosto, recebeu entre 16 e 25 banqueiros e empresários para um jantar no Palácio da Alvorada. Estiveram à mesa André Esteves (BTG Pactual), Joesley e Wesley Batista (JBS), Luiz Carlos Trabuco (Bradesco) e Roberto Setúbal (Itaú). Foi o primeiro jantar da campanha com um grupo tão amplo do PIB.
Na ocasião, o presidente e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, voltaram a dizer que herdaram o país em situação ruim, citando a conta de precatórios deixada por Jair Bolsonaro (PL). Lula também cobrou crescimento: “As empresas de vocês querem crescer, querem vender mais”, disse aos convidados, prometendo usar os mecanismos disponíveis para estimular a economia.
O nome do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, dominou parte da conversa. Lula negou rusgas com o dirigente, admitiu incômodo com o juro em 14% ao ano, mas fez questão de separar as coisas: “Eu tô puto com ele com os juros altos, mas ele não deixa de vir aqui”.
Um discurso dividido entre o mercado e a soberania nacional
Em 15 de setembro, na sabatina da TV Record, Lula voltou a criticar o modelo de autonomia do Banco Central, mas garantiu: “vou continuar tendo responsabilidade fiscal”. Nesta sexta-feira (25.set), o presidente participa de novo jantar com empresários em São Paulo, articulado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pelo ministro da Fazenda, a nove dias do primeiro turno.
Para analistas, o movimento de Lula é uma tentativa de pacificar um eleitorado que desconfia da sua gestão econômica, sem abrir mão do discurso de defesa dos interesses nacionais. Numa nação que conhece bem o preço da instabilidade, a mensagem é clara: o diálogo com o capital não pode jamais subordinar a soberania do Estado.
Perguntas frequentes sobre os encontros de Lula com o PIB
Quantos encontros Lula teve com empresários em 2026?
Até 24 de setembro de 2026, o presidente Lula somou 42 compromissos com empresários, banqueiros e instituições financeiras, o segundo maior total do seu terceiro mandato.
Qual banqueiro mais se encontrou com Lula no terceiro mandato?
Luiz Carlos Trabuco Cappi, do Bradesco, lidera com sete encontros individuais, seguido por André Esteves, do BTG Pactual, com cinco.
O que motivou a aceleração do diálogo na reta final?
A proximidade da eleição e as queixas do setor produtivo sobre a hesitação do presidente em promover encontros diretos levaram Lula a intensificar a interlocução, incluindo jantares no Palácio da Alvorada e em São Paulo.