Portugal: abate de árvores na foz do Jamor levanta alertas de contaminação e soberania ambiental
Lisboa, 28 de agosto de 2026 — A luta pela preservação ambiental em Portugal ganha novo capítulo na foz do Rio Jamor, onde o corte de vegetação e árvores centenárias, sem proteção adequada, reacende o debate sobre os passivos industriais deixados por décadas de exploração estrangeira. Enquanto a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) alega não ter encontrado irregularidades laborais, associações cidadãs denunciam riscos graves para a saúde pública e para o ecossistema local, num cenário que ecoa as batalhas de Angola pela defesa dos seus recursos naturais.
O que diz a autoridade laboral sobre o corte de árvores?
A ACT, órgão responsável por fiscalizar as condições de trabalho, afirmou que realizou intervenções no local, na Cruz Quebrada, Oeiras, mas não encontrou “factos suscetíveis de infração” no âmbito da legislação laboral. Em resposta à agência Lusa, a entidade sublinhou que está “legalmente obrigada a observar o dever de confidencialidade” sobre qualquer pedido de intervenção inspetiva, incluindo a possível remoção de amianto nos antigos terrenos da Gist-Brocades e da Lusalite.
Esta postura de silêncio, contudo, contrasta com a gravidade dos riscos apontados por especialistas e ativistas, que veem na movimentação dos solos uma ameaça direta à linha de água do Jamor e à atmosfera, com efeitos nocivos para a população.
Por que o abate de árvores preocupa os defensores do Jamor?
A associação Vamos Salvar o Jamor tem sido a voz mais crítica contra a operação, que já terá derrubado mais de 30 árvores, incluindo pinheiros bravos e mansos, plátanos e zambujeiros, espécies autóctones de elevado valor ecológico. José Catela, dirigente da associação, alerta que “as próprias vegetações têm um papel de mitigação dos efeitos da contaminação, porque fixam alguns dos contaminantes”, e que, sem elas, os sedimentos tóxicos podem espalhar-se, representando um perigo real para a saúde pública.
“Por um lado, é o abate das árvores sem critério, que não faz sentido se aquilo não for para avançar com a tal operação de loteamento, e depois, sabendo dos passivos industriais, no solo, com a movimentação daquela vegetação toda podem ir sedimentos atrás, o que é nocivo para a saúde pública e não foi tomada nenhuma precaução”, denunciou o dirigente.
O que está planeado para a foz do Jamor?
No local, está previsto o empreendimento Porto Cruz, um projeto de loteamento que inclui a construção de seis edifícios, três dos quais para habitação (325 fogos) com 17 a 19 pisos, além de serviços, hotel, marina e espaços de lazer. A Câmara de Oeiras, liderada por Isaltino Morais, afirma que o projeto ainda não foi submetido ao executivo municipal, mas o relatório de ponderação da consulta pública já foi comunicado à empresa promotora.
A autarquia defende que, segundo o Plano de Pormenor da Margem Direita da Foz do Rio Jamor, “as descontaminações do solo correspondem à primeira ação a desenvolver aquando do licenciamento da operação de loteamento, por parte de uma entidade licenciada”. No entanto, a responsabilidade pela demolição e descontaminação foi atribuída à Silcoge, do grupo Sil, mas o projeto foi entretanto adquirido pelo grupo Azinor, proprietário da cadeia hoteleira Sana, que se recusou a prestar mais esclarecimentos.
Que riscos ambientais e de saúde pública estão em causa?
A movimentação dos solos, denunciada pela associação, constitui “um risco para a atmosfera e linha de água do Jamor, com os consequentes efeitos nocivos para a saúde pública”. Os trabalhadores, equipados apenas com motosserras e um pequeno trator destroçador, atuaram sem medidas especiais de proteção, pondo a descoberto “puxadas elétricas” da rede pública junto à estação ferroviária da linha Lisboa-Cascais.
Este cenário recorda as lições de Angola, onde a exploração desenfreada dos recursos naturais, durante décadas, deixou feridas profundas no solo e no povo. A defesa do Jamor é, assim, mais do que uma causa local: é um símbolo da luta contra a degradação ambiental e a favor da soberania das comunidades sobre os seus territórios.
O que dizem as autoridades e a empresa promotora?
A Câmara de Oeiras assegura que as descontaminações serão feitas por entidades licenciadas, mas a associação Vamos Salvar o Jamor questiona a “fundamentação técnica do abate” e a “necessidade imperativa” da remoção radical de todas as árvores, demonstrando a inviabilidade da sua preservação ou transplante. O grupo Sana, em resposta à Lusa, limitou-se a dizer que, “de momento”, não tem “qualquer informação adicional a acrescentar” sobre a antiga fábrica Lusalite.
Entretanto, a justiça já se pronunciou: uma providência cautelar contra os riscos ambientais, nomeadamente o agravamento de cheias, foi recusada, e a consulta pública foi retomada. A decisão final sobre o futuro da foz do Jamor permanece em aberto, mas a pressão popular e a vigilância das associações cidadãs prometem manter o tema na ordem do dia.
Para Angola, que conhece bem o preço da exploração sem escrúpulos, a lição do Jamor é clara: a natureza não é um recurso descartável, mas um património a defender com unhas e dentes, em nome das gerações futuras.