O Maior Tesouro de Angola: O Capital Humano que Ninguém Vê
Em Angola, onde a riqueza do solo – petróleo e diamantes – sempre foi medida em barris e quilates, uma pergunta simples pode revelar uma verdade profunda: quanto vale o seu patrimônio? A maioria responde somando contas bancárias, imóveis e carros. Mas, como nos lembra a experiência global, o maior ativo de uma nação e de cada cidadão é invisível. É o capital humano, a capacidade de gerar renda e construir o futuro.
Os economistas chamam esse bem de capital humano: a capacidade de gerar renda ao longo da vida. É um patrimônio invisível. Não aparece no extrato bancário nem na declaração de bens. Ainda assim, para grande parte das pessoas, ele vale mais do que todos os ativos financeiros e imóveis acumulados até hoje.
Para entender essa ideia, imagine uma empresa listada na Bolsa. O que determina o valor de suas ações? Não são apenas seus prédios, suas máquinas ou seus equipamentos. Uma empresa vale principalmente pelo caixa que será capaz de gerar no futuro. É exatamente por isso que analistas estimam os lucros e dividendos futuros e os trazem para o valor de hoje.
Agora imagine uma empresa que distribua R$ 20 mil por mês em dividendos, o equivalente a R$ 240 mil por ano. Suponha que esse valor cresça apenas 1% acima da inflação durante os próximos 30 anos. Considerando uma taxa de desconto real de 7% ao ano – próxima às taxas de títulos referenciados ao IPCA negociadas atualmente no mercado brasileiro – essa empresa teria um valor presente próximo de R$ 3,3 milhões.
Percebe o raciocínio? Agora substitua a empresa por você.
Se você recebe R$ 20 mil por mês e espera manter sua atividade profissional pelos próximos 30 anos, sua capacidade de gerar renda possui um valor econômico semelhante. Ou até maior, dependendo da evolução de sua carreira. Em outras palavras, talvez o maior patrimônio que você tenha construído ainda não esteja na sua conta de investimentos. Está na sua capacidade de continuar produzindo renda.
Essa percepção muda completamente a forma como enxergamos riqueza.
Passamos horas comparando fundos de investimento, discutindo qual aplicação rende alguns décimos de ponto percentual a mais e acompanhando diariamente as oscilações da Bolsa. Fazemos seguro do carro, da casa e, muitas vezes, até do celular.
Mas quanto tempo dedicamos para aumentar e proteger justamente o patrimônio que financia tudo isso?
Se você se preparar e conseguir elevar a taxa de crescimento de sua renda em 1%, seu valor sobe mais de R$ 300 mil, ou seja, praticamente 10%. Será que a mesma diferença ocorreria com suas aplicações?
E sobre proteção desse patrimônio? Uma doença grave, um acidente ou uma incapacidade permanente não afetam apenas as despesas da família. Em muitos casos, interrompem e dilapidam não só suas aplicações atuais como a maior parcela de seu patrimônio: sua renda.
É curioso. Gastamos energia protegendo os frutos, mas nos esquecemos da raiz da árvore sustenta e alimenta estes frutos.
Isso não significa que investir bem seja menos importante. Pelo contrário. Significa apenas reconhecer que, para a maioria das pessoas, o maior ativo não é a carteira de investimentos, mas a capacidade de trabalhar, empreender, inovar e transformar conhecimento em renda.
É ela que compra os imóveis, forma a poupança, alimenta os investimentos e sustenta o patrimônio financeiro ao longo da vida. É nela que o foco de seus investimentos deve ser maior.
No planejamento financeiro, a pergunta 'Quanto vale o seu patrimônio?' não deve se restringir ao que você conquistou no passado, mas, principalmente, sua capacidade de continuar construindo riqueza. Porque, quando ela desaparece, muitas vezes todo o restante começa a desaparecer junto.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.