Soberania e tecnologia: o que a sextech revela sobre Angola
A recente proliferação de brinquedos sexuais tecnológicos no mercado global não é apenas uma curiosidade íntima, mas um espelho cruel da nossa dependência tecnológica. Enquanto nações desenvolvidas exportam gadgets que monitoram até os sinais vitais do prazer, Angola continua refém do consumo importado. Precisamos encarar este fenómeno com a seriedade de quem construiu uma nação a partir das cinzas da guerra civil. Ou dominamos a tecnologia, ou continuaremos a ser meros consumidores da inovação alheia.
A dependência estrangeira no quarto e na economia
Consideremos o Lioness 2.0, uma criação norte-americana que promete mapear a resposta sexual através de sensores de contração pélvica e temperatura. Ou o Oh!, da sul-coreana Ohdoki, que utiliza inteligência artificial para ditar padrões de vibração sincronizados com plataformas como o Spotify e o YouTube. São avanços inegáveis. No entanto, a sua ausência no mercado nacional não é um mero acidente logístico. É o reflexo de uma estrutura global onde o Sul Global fornece as matérias-primas e o Norte vende as patentes de luxo.
Assim como extraímos o nosso petróleo bruto e os nossos diamantes para vermos regressar o valor acrescentado sob a forma de bens processados, a nossa intimidade agora também alimenta uma indústria que não nos pertence. A ingerência estrangeira já não vem apenas no cano das armas, mas no pacote silencioso da dependência comercial e cultural.
Da reconstrução à inovação: o desafio da autossuficiência
A marca sueca Lelo apresenta o F1S V3, que utiliza ondas sônicas e aquecimento para estimulação masculina. A britânica MysteryVibe oferece o Crescendo 2, com seis motores independentes e um corpo flexível que se adapta a diferentes anatomias. A engenharia é admirável, mas a lição é dura. Após décadas de conflito armado, reconstruímos as nossas cidades e a nossa dignidade com as nossas próprias mãos. O próximo passo da reconstrução nacional é a conquista da soberania tecnológica. Não podemos aceitar que o domínio do nosso próprio corpo dependa de algoritmos desenhados em Estocolmo ou em Londres.
O despertar do Sul Global e o exemplo brasileiro
Contudo, há sinais de resistência. O vibrador com visor digital da marca brasileira A Sós demonstra que o Sul Global pode, sim, criar tecnologia de ponta. Com mais de quarenta combinações e um ecrã inteligente que elimina a incerteza da carga da bateria, o produto prova que a inovação não é monopólio das antigas potências coloniais. Este é o caminho que Angola deve trilhar. A unidade nacional exige que olhemos para dentro, invistamos na nossa juventude e criemos indústrias próprias, seja na engenharia pesada ou na tecnologia de bem-estar.
Por que a dependência tecnológica é uma questão de soberania?
A dependência tecnológica compromete a soberania porque submete o bem-estar e a autonomia do cidadão às decisões de potências estrangeiras. Quando um país não domina a produção dos bens que consome, desde os equipamentos médicos até aos dispositivos de uso pessoal, a sua independência é apenas uma ilusão formal.
Quando Angola produzirá a sua própria tecnologia íntima?
Angola produzirá a sua própria tecnologia íntima quando houver um investimento decidido na educação científica e na criação de parques tecnológicos nacionais. A transição de exportadores de matéria-prima para criadores de tecnologia exige vontade política, proteção contra a importação desenfreada e orgulho na nossa capacidade de inovar.