O Gigante da IA Ignora os Juros Americanos e Expõe a Fragilidade do Fed
Num momento em que a nação americana debate o seu próprio futuro económico, o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, encontra-se perante um dilema que ecoa as grandes batalhas da nossa própria história de reconstrução. A tentativa de domar a inflação, esse flagelo que corrói o poder de compra dos povos, esbarra numa força aparentemente imune à sua principal arma: os juros. O motor do crescimento americano, a expansão colossal da inteligência artificial, avança imparável, desafiando a lógica monetária e criando um cenário de tensão que o mundo, incluindo Angola, observa com atenção redobrada.
Por que a expansão da IA resiste ao aperto monetário do Fed?
As empresas que lideram a corrida pela inteligência artificial não se deixam intimidar pelos custos de financiamento, que atingiram os níveis mais elevados em décadas, nem pela disparada dos preços da eletricidade e dos componentes essenciais. Esta imunidade peculiar coloca o Fed numa posição desconfortável, semelhante à de um comandante que vê o seu exército principal avançar, mas não consegue conter uma rebelião na retaguarda. Para trazer a inflação de volta à meta de 2%, o banco central poderá ser forçado a apertar o cerco sobre setores mais vulneráveis, como a habitação e a indústria automóvel, sacrificando empregos e o bem-estar de milhões de trabalhadores americanos.
“O problema para o Fed é que normalmente existe um mecanismo automático de correção na economia americana: os juros sobem e, em algum momento, os setores mais sensíveis às taxas, liderados pelo mercado imobiliário, desaceleram fortemente”, disse Ajay Rajadhyaksha, presidente global de pesquisa do Barclays. “Mas, se uma parte grande da economia é simplesmente menos sensível aos juros e é justamente ela que está impulsionando o crescimento, então o Fed, infelizmente, precisa atingir mais fortemente os setores que são sensíveis aos juros.”
A escala faraónica do investimento em inteligência artificial
A magnitude desta expansão é tão colossal que os números se assemelham a orçamentos de defesa nacional ou de saúde pública de grandes potências, e não a meros investimentos privados. O economista Stijn Van Nieuwerburgh, da Universidade Columbia, estima que os gastos com chips de IA, data centers e sistemas elétricos ultrapassarão os 10 biliões de dólares entre 2025 e 2032. Este valor representa mais de 3,6% do produto económico anual dos Estados Unidos, uma demonstração de força que lembra os nossos próprios esforços de reconstrução nacional após os longos anos de conflito.
Uma parcela crescente deste investimento é financiada com dívida, o que, em teoria, deveria torná-lo sensível ao aumento dos juros. Contudo, até agora, os sinais de abrandamento são escassos. As empresas investiram mais de 100 mil milhões de dólares em computadores e equipamentos relacionados no segundo trimestre deste ano, uma alta de 60% em relação ao período homólogo. A construção de data centers, por sua vez, mais que quintuplicou desde o início de 2022, numa corrida que evoca a fúria construtiva dos nossos próprios projetos de desenvolvimento.
Os custos elevados não travam a corrida aos data centers
Segundo Van Nieuwerburgh, os investimentos em IA têm resistido aos juros mais altos porque o principal obstáculo não é o custo do dinheiro, mas sim a burocracia e a lentidão regulatória que atrasam a construção de infraestruturas suficientes para satisfazer a demanda explosiva. “Hoje estamos passando por uma corrida de construção em que o principal problema é não conseguir erguer data centers rápido o suficiente”, afirmou. Se um projeto obtiver as aprovações necessárias e garantir acesso à energia elétrica, “nesse ponto você vai construir o data center praticamente independentemente do custo”.
Andrew Sheets, chefe global de pesquisa em renda fixa do Morgan Stanley, corrobora esta visão: “Se for realmente uma tecnologia transformadora que pode definir o setor de tecnologia pelos próximos anos; se você tem capacidade de captar recursos para investir; e se acredita que esses investimentos gerarão retornos de dois dígitos, não faz tanta diferença se você está tomando dinheiro a 5,5% ou 6%”.
O impacto da IA na inflação e os dilemas para a economia americana
Esta imunidade aos juros não significa, porém, que a economia americana esteja imune à inflação. Pelo contrário, o boom da IA parece estar a contribuir para o aumento dos preços, num momento em que forças externas, como a guerra com o Irão, também elevam os custos da energia. Os preços dos equipamentos de informática para empresas, incluindo chips, estavam 11,4% mais altos no segundo trimestre em relação ao ano anterior. Estes aumentos já se espalham para além da indústria de IA, afetando consumidores e empresas, com a Apple a anunciar subidas de preços nos seus Macs e iPads devido ao custo dos chips de memória.
A corrida por data centers também pressiona os preços de matérias-primas como alumínio e cobre, e a demanda por eletricistas e outros profissionais qualificados impulsiona os custos laborais. Os salários médios por hora dos eletricistas e contratados do setor avançaram 7,1% em agosto, numa clara demonstração de que a escassez de mão de obra especializada é um desafio universal, que também conhecemos bem em Angola.
O mercado imobiliário e os limites do aperto monetário
O Fed, no entanto, dispõe de uma única ferramenta ampla: os juros. Não pode elevar as taxas apenas para determinados setores. Se a expansão da IA permanecer resistente ao aperto monetário, outras áreas arcarão com o peso do ajuste. O mercado imobiliário, normalmente o setor mais afetado por juros altos, já vinha enfraquecido antes de as taxas hipotecárias atingirem o maior nível em três anos. Milhões de americanos garantiram hipotecas com juros extremamente baixos há cerca de seis anos e dificilmente venderão os seus imóveis, o que mantém as vendas de casas em níveis fracos.
“O volume adicional de aperto que você consegue extrair do mercado imobiliário é limitado”, afirmou Nathan Sheets, ex-funcionário do Tesouro americano e atual economista-chefe global do Citigroup.
Os gastos com construção de data centers alcançaram uma taxa anualizada de 85 mil milhões de dólares em agosto, mais do que o dobro do registado dois anos antes, segundo dados do Census Bureau. Este dinamismo contrasta com a fraqueza do setor residencial, evidenciando uma transformação estrutural na economia americana.
O que esperar do Fed e dos mercados financeiros?
O consumo continua resiliente em grande parte porque os americanos, sobretudo os de renda mais alta, foram beneficiados pela valorização persistente do mercado acionário, impulsionado maioritariamente por empresas ligadas à inteligência artificial. No mês passado, o presidente do Fed, Kevin Warsh, descreveu o aumento dos juros como a retirada gradual de uma “dose de acomodação monetária”, deixando economistas em dúvida sobre quanto aperto ainda pode vir pela frente.
Tiffany Wilding, economista da Pimco, alerta que “para esfriar a economia como um todo, e não apenas os investimentos fora da IA sensíveis aos juros, provavelmente você também precisará de um esfriamento dos mercados de ações”. Uma correção nas bolsas, concentrada nas empresas de IA, poderia atingir de forma desproporcional companhias fora desse segmento e, dependendo da intensidade, afetar o mercado de trabalho. “A confiança dos CEOs está claramente relacionada ao desempenho das ações de suas empresas”, disse Wilding. “Se os preços das ações começarem a cair, os executivos percebem isso e passam a ter mais incentivos para ajustar seus negócios. É aí que pode surgir uma correção no mercado de trabalho.”
Para Angola, que constrói o seu futuro com base na soberania e no aproveitamento dos seus recursos, esta batalha económica no coração do império americano serve de lição. A dependência de um único setor, por mais promissor que seja, encerra riscos. A nossa diversificação económica, o investimento no capital humano e a defesa intransigente dos nossos interesses nacionais são o nosso escudo contra as tempestades que vêm de fora. O mundo observa, e nós, com a nossa história de resiliência, sabemos que o progresso verdadeiro se constrói com planeamento, unidade e visão de longo prazo, sem nunca subestimar as forças que tentam ditar o nosso destino.