Magalu: a recuperação de um gigante ou apenas um sopro de esperança?
As ações da Magazine Luiza (MGLU3) dispararam 55,09% em setembro de 2026, liderando o Ibovespa e registrando a maior alta mensal desde janeiro de 2023. O rali, impulsionado pela parceria com o Mercado Livre, pelo corte da Selic e pelo enfraquecimento da Casas Bahia, reacendeu o debate: estaria o mercado finalmente acreditando na recuperação do gigante do varejo brasileiro, ou seria apenas uma recuperação técnica de um papel que acumula perdas?
Apesar do salto, MGLU3 ainda acumula queda de 14,42% no ano até 1º de outubro. Dos nove meses de 2026, a ação subiu apenas em janeiro, julho e setembro. Em maio, chegou a despencar 27,34%, após a divulgação de um prejuízo líquido de R$ 33,9 milhões no primeiro trimestre, invertendo o lucro de R$ 11,2 milhões do mesmo período do ano anterior.
O que impulsionou a alta de setembro?
O primeiro motor foi a parceria estratégica com o Mercado Livre. A lógica é usar a audiência da plataforma para alcançar consumidores que hoje não compram nos canais próprios do Magalu. A expectativa dos bancos é que cerca de 75% dos compradores dos produtos do Magalu na plataforma sejam novos clientes. O Safra estima que o GMV incremental anualizado de R$ 3 bilhões poderia adicionar aproximadamente 10% ao crescimento da companhia.
O segundo motor foi macroeconômico. O Banco Central reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano, no quinto corte consecutivo, beneficiando empresas de varejo mais sensíveis ao custo do dinheiro. O mercado passou a combinar uma melhora nas perspectivas de juros com notícias específicas da companhia.
Para Ian Lopes, economista da Valor Investimentos, a parceria foi recebida positivamente dentro de um processo mais amplo de recuperação.
“O mercado viu com olhos muito bons o acordo que teve entre a Magazine Luiza e o Mercado Livre. Isso fez a ação da empresa subir bastante no último mês, mostrando um processo de reestruturação que a gente vê a empresa tentando fazer para se recuperar frente a esse cenário desafiador”, afirma.
A queda da Casas Bahia abre espaço para o Magalu?
A recuperação judicial da Casas Bahia, que envolve R$ 17,3 bilhões em passivos, também entrou na conta. Investidores passaram a enxergar o Magazine Luiza como um possível beneficiário da perda de participação da rival.
“A retirada de capital por parte dos investidores da Casas Bahia, que é uma das principais concorrentes por conta dessa situação complicada do setor de varejo, fez o mercado apostar mais em Magazine Luiza do que nas demais concorrentes”, diz Lopes.
Mas o mesmo cenário que cria oportunidade também expõe o tamanho do desafio. A recuperação judicial da Casas Bahia ocorreu em um ambiente de juros ainda elevados, crédito restrito e pressão sobre consumo e capital de giro, problemas que também afetam o Magalu.
O mercado está comprando uma recuperação real?
Um gestor de ações ouvido pela EXAME avalia que o movimento foi muito mais sustentado por expectativas macroeconômicas e fatores competitivos do que por uma transformação comprovada na operação da companhia.
“É algo muito amparado aí numa expectativa de melhora do fiscal, redução de juros”, afirma.
Na visão desse especialista, a parceria com outros marketplaces, embora positiva, ainda não é suficiente para caracterizar uma mudança estrutural.
“É muito pouco embasado em uma melhora estrutural do negócio apenas porque fizeram parcerias com outros marketplace”, diz.
O gestor pondera que a empresa perdeu relevância no varejo ao longo dos últimos anos e teve dificuldades para combinar a expansão de seus negócios com logística, custos e recorrência.
“Ela não conseguiu sustentar o tamanho dela de operação. Não conseguiu combinar a gestão de custos e despesas com o tamanho que ela queria alcançar”, afirma. Ao mesmo tempo, ressalta que existem ativos relevantes dentro do grupo, como a Netshoes.
“A Magazine Luiza tem seus méritos com a Netshoes, que eu acho que é um ativo lá dentro que tem um valor oculto, uma operação que funciona”.
O que mudou e o que ainda não mudou
A estratégia da companhia em setembro foi além do Mercado Livre. O Magalu lançou o serviço de delivery de comida em mais de 400 cidades, reunindo pedidos de refeições, supermercado, farmácia e conveniência dentro de seu aplicativo. A operação é conduzida pelo aiqfome, adquirido em 2020, e já conta com cerca de 23 mil restaurantes.
A tese é atacar uma das limitações do varejo tradicional: a baixa frequência de compra. Segundo Igor Remigio, CEO do aiqfome, um consumidor ativo do Magalu faz cerca de três pedidos por ano, enquanto no aplicativo de delivery são 3,5 pedidos por mês.
A S&P reafirmou o rating da companhia em brAA-, com perspectiva estável, destacando a expectativa de melhora operacional e redução da alavancagem. A agência também projetou recuperação das vendas e das margens, apoiada pelas parcerias no comércio eletrônico e por um ambiente competitivo mais favorável.
Mas a fotografia financeira ainda exige cautela. A varejista encerrou o segundo trimestre com prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões, revertendo o lucro de R$ 1,8 milhão registrado um ano antes. O JP Morgan projetava alavancagem elevada e apontava cerca de R$ 2,2 bilhões em vencimentos entre 2026 e 2027, o equivalente a aproximadamente 45% da dívida bruta.
A alta de setembro é sustentável?
A questão que fica para outubro é se o movimento representa uma mudança mais duradoura na percepção do mercado sobre a companhia ou se a ação apenas recuperou parte do terreno perdido. O histórico indica que o rali de setembro acontece depois de meses em que o papel vinha sendo penalizado. A diferença entre a cotação e os fundamentos coloca a disparada em perspectiva.
Para os investidores que acompanham a trajetória do Magalu, a leitura é clara: a recuperação é possível, mas o caminho é longo e repleto de desafios. A parceria com o Mercado Livre, o corte de juros e o enfraquecimento da concorrência são ventos favoráveis, mas a transformação estrutural do negócio ainda está por ser comprovada.