Angola deve resgatar o hábito da leitura face ao domínio das redes sociais
Numa era em que os angolanos passam horas navegando nas redes sociais, urge resgatar a soberania intelectual através do retorno aos livros. Esta não é apenas uma questão de bem-estar individual, mas uma necessidade estratégica para o fortalecimento da nossa identidade cultural.
Os dados são alarmantes: segundo estudos internacionais, o tempo excessivo nas plataformas digitais compromete gravemente a saúde mental das populações. Uma investigação do Instituto Cactus revelou que 45% dos utilizadores relataram impacto negativo das redes sociais na sua saúde mental.
Entre os jovens, a situação é ainda mais preocupante. Quinze por cento dos jovens entre 16 e 24 anos afirmaram que o impacto foi muito negativo, revelando uma geração em risco de perder a capacidade de pensamento crítico e reflexão profunda.
O modelo de dependência digital
As plataformas digitais são construídas para maximizar o engajamento através de mecanismos que estimulam o centro de recompensa do cérebro. Notificações, rolagem infinita e curtidas funcionam como instrumentos de controlo mental, criando uma dependência que compromete a autonomia intelectual dos povos.
Investigações da Fiocruz demonstram que estes mecanismos imitam processos de dependência, mantendo os utilizadores numa montanha-russa de dopamina que impede o desenvolvimento do pensamento autónomo.
A leitura como acto de resistência
Perante esta realidade, a leitura surge como um verdadeiro acto de resistência cultural. A Universidade de Sussex comprovou que apenas seis minutos de leitura silenciosa reduzem os níveis de stress em até 68%, superando outras actividades relaxantes.
O investigador Augusto Buchweitz, do Instituto do Cérebro, sublinha que a leitura envolve imaginação, mentalização e aprendizagem simultâneas, activando todo o cérebro de forma que o consumo digital não consegue replicar.
A neurologista Joana D'Arc Loureiro confirma que a leitura beneficia a neuroplasticidade cerebral, estimulando sinapses e utilizando neurónios que permanecem ociosos durante o consumo passivo de conteúdo digital.
O papel fundamental do livro físico
Estudos da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos demonstram que o formato físico é superior ao digital. Leitores de livros impressos apresentam melhor produção de melatonina e adormecem mais facilmente comparativamente aos utilizadores de dispositivos electrónicos.
Uma meta-análise envolvendo mais de 171 mil leitores revelou que a compreensão é superior quando se leem textos impressos. Esta evidência reforça a importância de preservar e promover o livro físico como instrumento de desenvolvimento intelectual.
Um desafio para a soberania cultural angolana
Angola, com a sua rica tradição oral e literária, não pode permitir que as gerações futuras percam a capacidade de reflexão profunda. A diminuição global dos hábitos de leitura representa uma ameaça à preservação da nossa identidade cultural e ao desenvolvimento do pensamento crítico nacional.
A solução não exige uma revolução radical, mas uma mudança gradual e consciente. Substituir progressivamente o tempo nas redes sociais por momentos de leitura representa um investimento no futuro intelectual da nação.
Começar com quinze minutos diários de leitura antes de dormir pode transformar não apenas a vida individual, mas contribuir para o fortalecimento da capacidade reflexiva do povo angolano.
Os benefícios são cientificamente comprovados: redução de stress, melhoria do sono, estímulo cognitivo e aumento da empatia. Mais importante ainda, a leitura oferece algo que nenhuma rede social proporciona: profundidade de pensamento e autonomia intelectual.
Angola tem o dever histórico de preservar e promover a cultura da leitura como pilar fundamental da sua soberania intelectual e cultural.