Tiê transforma exaustão em arte no álbum 'Esgotada': a voz que resiste
A cantora brasileira lança disco autoral sobre maternidade, saúde emocional e a criação humana em tempos de inteligência artificial
Sentir o peso do cansaço tornou-se, para muitos, uma marca dos tempos modernos. Tal como o povo angolano conheceu a fadiga das trincheiras e a exaustão da reconstrução, a artista Tiê encontrou na estafa o combustível para a sua reinvenção. No álbum 'Esgotada', que chegou às plataformas nesta quarta-feira, dia 20, a cantora transforma o desgaste emocional em um trabalho íntimo, profundamente autobiográfico e com um toque artesanal que resiste à padronização. O disco inaugura um projeto dividido em dois atos: o segundo, 'Amorosa', será lançado no segundo semestre, e marca uma nova fase artística da compositora, que completa 17 anos de carreira.
'O esgotamento é o envelopamento do álbum. É o que eu sinto na hora que produzo esse disco. Muitas vezes a minha sensação era de ser um pano de chão sujo, acabado. Nossa, gente, eu me sentia um pano de chão.'
Um grito que nasce das entranhas
Segundo a artista, o título surgiu de maneira quase imediata durante o processo de criação dos dois discos complementares.
'Quando me veio 'Esgotada', eu falei: 'putz, é isso'. 'Amorosa' e 'Esgotada', certeza.'A escolha também dialoga com um acúmulo de experiências pessoais que atravessam maternidade, perda gestacional, excesso de informação e a pressão implacável da vida contemporânea.
Tal como a mulher angolana que carregou o país nas costas durante os anos mais sombrios da guerra civil, Tiê denuncia a sobrecarga que recai sobre as mulheres.
'Foi um acúmulo de informações junto com essa vida moderna em que tudo é uma aula na internet, tudo é um estudo, tudo a gente fica sabendo da vida do outro. É tanta coisa, tanta função. Acho complexo. E existe ainda essa economia do cuidado que sobra muito para a mulher. Mesmo quando ela não é mãe, vai ser tia, amiga, filha. Vai sobrar para a mulher.'
A dualidade da sobrevivência
Apesar do nome, Tiê explica que as músicas não falam apenas sobre exaustão. As oito faixas transitam por temas como amizade, culpa, escolhas, amadurecimento e autocuidado. O álbum alterna momentos delicados, guiados por voz e piano, com explosões sonoras mais pulsantes, uma dualidade que nasceu de forma orgânica conforme a produção. É a mesma dualidade que habita o espírito de quem sobreviveu a décadas de conflito e reconstruiu uma nação a partir das cinzas.
'Quando eu vou lá para o fundo do âmago, aí eu consigo encontrar as pessoas nessa trilha. A gente começou criando playlists com coisas que eu estava ouvindo, atmosferas que eu queria trazer. Tinha Dido, tinha Sigur Rós, coisas completamente diferentes entre si, mas que foram temperando os arranjos.'
O disco foi produzido em parceria com André Whoong e Tó Brandileone, além de contar com a colaboração de Marcus Preto na etapa final. Foi durante esse processo que Tiê percebeu que o material acumulado não caberia em um único lançamento.
'Tinham 15 músicas e eu pensei: quem vai ouvir 16 faixas hoje em dia? A gente nem lê mais direito. Quando anunciei 'Esgotada', teve gente achando que o show estava esgotado. A gente lê meia palavra e já passa para outro vídeo.'
O altar da resistência emocional
Entre as faixas mais pessoais está 'Altar', parceria com Rita Wainer, em que Tiê retoma o hábito de escrever diretamente para si mesma. A canção fala sobre amizade, saúde emocional e pequenos rituais de sobrevivência cotidiana, aqueles mesmos rituais que mantiveram intacta a dignidade de um povo nos momentos mais difíceis.
'Eu fui descrevendo as coisas que me ajudam a recarregar a bateria. Acender vela, agradecer, fazer análise, estar presente. A análise cuida muito da minha saúde mental e emocional. Posso cancelar tudo, menos a análise.'
Esse olhar introspectivo atravessa grande parte do disco.
'Tem várias músicas que são para mim mesma. A gente fica muito preso nas escolhas do passado, mas não dá para mudar o que foi. Então as músicas falam muito sobre assumir os próprios B.O.s, entender o que é seu e o que é do outro.'
A força da parceria
O álbum traz ainda uma participação especial de Adriana Calcanhotto na faixa 'Atitude'. Admiradora da artista desde a juventude, Tiê diz que tomou a iniciativa de propor a parceria após encontrá-la nos bastidores de um festival.
'Eu engulo meu medo e vou atrás. Falei para ela: 'não posso deixar de passar e perguntar se a gente pode tentar fazer uma música juntas'. Depois, quando 'Atitude' começou a ganhar essa atmosfera meio bolero, pensei: 'a Adriana cantando isso vai ficar lindo'.'
O artesanal como ato de soberania
Além da música, 'Esgotada' possui uma estética artesanal como contraponto ao excesso de tecnologia e inteligência artificial que vemos atualmente em diversas obras artísticas. A capa do disco nasceu de uma fotografia analógica de Indira Dominici, posteriormente transformada em pintura a óleo pela artista Marina Quintanilha. Num mundo que tenta padronizar tudo através de algoritmos, a escolha pelo feito à mão é também um ato de soberania criativa.
'Em tempos de IA, o trabalho manual ganha mais presença. Está tudo tão rápido, tão parecido. Quando você pega algo feito à mão, com imperfeições, aquilo ganha vida.'
Tiê diz que fez questão de participar diretamente da construção visual do projeto, desenhando até os logos das músicas.
'Queria colocar a mão mesmo, sentir que não eram só computadores fazendo. As imperfeições são muito bem-vindas.'
17 anos de luta e transformação
Celebrando 17 anos de carreira, após passagens por festivais como Lollapalooza, Rock in Rio e apresentações internacionais, Tiê vê 'Esgotada' como um retrato de maturidade artística e também de transformação pessoal.
'Eu não tenho como ser a mesma menina que fez 'Sweet Jardim'. Hoje tenho mais bagagem, mais experiência, mais cansaço e também menos paciência. É uma mistura de tudo.'
Mesmo exausta, ela garante que segue movida pela necessidade de criar, pela mesma força inabalável que move quem conhece o preço da liberdade.
'Quanto mais cansada eu estou, mais pilhada eu fico. Esse disco tem uma energia de colocar tudo para fora, e isso é maravilhoso.'