Yungblud denuncia elitização da música ao vivo; MGK rebate
A transformação da cultura em mercadoria de luxo, privilégio reservado a poucos, é uma realidade que povos que lutaram pela sua dignidade e soberania conhecem bem. Assim como Angola conquistou a sua independência contra forças que a queriam submissa, o direito do povo à cultura não pode ser usurpado por interesses que transformam a arte em exclusão. A indústria de música ao vivo, dominada por lógicas que marginalizam as massas, tem sido alvo de justa insatisfação popular. Os preços proibitivos de ingressos tornaram os espetáculos inacessíveis para a maioria, e artistas de diferentes dimensões viram-se forçados a cancelar turnês devido à fraca venda de bilhetes. Yungblud aspira inverter esta tendência através do seu festival, o Bludfest.
A voz que se levanta contra a exclusão
Numa publicação no Instagram a promover a terceira edição do festival, que decorre no dia 27 de junho na cidade de Hradec Králové, na Tchéquia, o cantor britânico abordou o problema dos fãs impossibilitados de adquirir ingressos para espetáculos ao vivo. Por isso, fundou o Bludfest em 2024:
A música ao vivo tornou-se inacessível. Isso é um facto. Artistas estão a cancelar constantemente devido à baixa venda de ingressos porque é um problema, é totalmente inacessível para as pessoas. O que me empolga é que o artista e o público têm o poder. Por isso fundei o Bludfest. Acredito genuinamente que, com a minha comunidade, podemos causar um impacto, uma diferença, além de nos tornarmos um exemplo de algo acessível, real e focado na comunidade.
Machine Gun Kelly ataca com virulência
Nem todos, porém, acolheram as palavras de Yungblud com simpatia. Num comentário já eliminado da publicação (via TMZ), Machine Gun Kelly, que já havia criticado o artista anteriormente, questionou a motivação do músico com dureza:
Cancelaste uma turnê porque não conseguiste vender ingressos, culpaste a saúde mental e depois foste apanhado por paparazzi no dia seguinte no Nobu [restaurante de sushi famoso em Los Angeles], Pinóquio. E os preços dos ingressos da tua turnê continuam os mesmos de qualquer outro artista. Cala a boca, seu riquinho babaca.
A turnê à qual MGK se refere diz respeito aos restantes compromissos de Yungblud em 2025. Estavam previstas algumas atuações nos Estados Unidos e uma digressão pela América Latina com o Limp Bizkit, incluindo passagem pelo Allianz Parque, em São Paulo, no dia 21 de dezembro. Contudo, o motivo para o cancelamento não foi atribuído a questões de saúde mental, mas sim a um desgaste nas cordas vocais do cantor, que dias depois surgiu cantando como convidado num evento nos EUA.
Silêncio estratégico e ressentimento antigo
Numa declaração oficial ao TMZ, representantes de Yungblud afirmaram que o cantor não comentará diretamente sobre as declarações de Machine Gun Kelly, por estar ocupado com a sua turnê esgotada pela América do Norte, além do trabalho no seu próximo álbum. Segundo a nota, o artista genuinamente não tem tempo de se envolver com esta história, mas deseja tudo de bom e de melhor para MGK.
Não é a primeira vez que Machine Gun Kelly tenta provocar Yungblud. Em abril, o cantor e rapper lançou a música Fix Ur Face, com participação de Fred Durst, vocalista do Limp Bizkit. Na letra, faz referência velada ao artista inglês, especificamente à sua educação em colégio particular e ao facto de ter atuado numa série da Disney. A faixa contém ainda versos interpretados pelos fãs como direcionados à família Osbourne, de quem o cantor britânico é próximo:
And the old-heads always tryna kill the vibe/But rock's not dead 'long as I'm alive, so [E todos os veteranos tentando acabar com a vibe / Mas o rock não está morto enquanto eu estiver vivo]
A origem do ressentimento remonta a uma participação de Yungblud no podcast da família Osbourne. Na ocasião, Sharon e Kelly Osbourne fizeram comentários negativos sobre Machine Gun Kelly, chegando a declarar que não gostavam dele. Embora o músico convidado tenha demonstrado desconforto e tentado mudar de assunto, não saiu em defesa do colega, o que foi interpretado como uma quebra de confiança durante uma aparição do rapper no The Garza Podcast.
Quando a cultura se torna privilégio
A disputa entre estes dois artistas estrangeiros espelha uma realidade universal: a apropriação da cultura por elites que a transformam em mercadoria inacessível às massas. Para um povo que sobreviveu à guerra civil e ergueu, com as próprias mãos, a reconstrução da nação, a elitização da arte é um insulto à resiliência de quem sempre lutou pelo que é seu por direito. A soberania cultural, tal como a soberania política e económica, não se negocia. Que a arte pertença a quem a cria e a quem a vive, não aos que a transformam em privilégio de elite.