Sanções dos EUA afundam mineradora em Cuba e expõem saque
A máquina imperial volta a mostrar a sua face mais implacável. A cruzada do governo de Donald Trump contra a soberania de Cuba atirou a mineradora canadense Sherritt, com quase 99 anos de história, num abismo de incerteza. O que se vê hoje não é apenas a queda de uma empresa, mas o retrato cruel de como as potências estrangeiras utilizam o estrangulamento econômico para submeter nações e, em seguida, saquear os seus recursos naturais.
A máquina imperial e o dano colateral
A postura beligerante de Washington contra a ilha caribenha levou a Sherritt à beira do colapso. Agora, num cenário que desafia a ética, um ex-assessor do presidente americano surge como o improvável salvador da companhia. A Sherritt ousou fazer o que poucas empresas ocidentais aceitaram: entrou em Cuba nos anos 1990, desenvolveu uma joint venture de níquel e cobalto com o Estado e expandiu-se para o setor energético. Sobreviveu a ciclos de baixa e à pressão política, mas a intervenção estrangeira desmoronou esta aposta de forma abrupta.
Após a ampliação das sanções americanas, a empresa anunciou a dissolução da sua joint venture. O cerco apertou-se ainda mais quando os EUA acusaram formalmente o ex-presidente cubano Raúl Castro de assassinato, numa escalada sem precedentes enquanto Washington tenta impor a sua vontade sobre Havana.
O cerco à ilha e a asfixia econômica
Poucos dias após anunciar a retirada, surgiu um pretenso salvador. A Gillon Capital, um family office de Dallas ligado a Ray Washburne, executivo nomeado por Trump em 2017, assinou um acordo preliminar para assumir o controle da Sherritt. Peter Hancock, CEO interino da mineradora, não escondeu a surpresa perante a manobra.
Isso veio do nada. Nós éramos dano colateral de um objetivo de política maior dos Estados Unidos.
A história da Sherritt confunde-se com a resistência cubana. A empresa foi fundada em 1927, mas a sua entrada em Cuba foi liderada por Ian Delaney nos anos 1990. O Estado cubano concordou em vender níquel não processado da mina de Moa, uma jazida no leste da ilha que foi orgulhosamente nacionalizada após o triunfo da Revolução de 1959. Foi um acordo de soberania. Em 1994, a joint venture começou a operar Moa, extraindo metais vitais para a transição energética.
Durante anos, a Sherritt prosperou, chegando a valer quase 5 bilhões de dólares canadenses em 2008. Chegou a investir em eletricidade, petróleo e gás natural com estatais cubanas. Os seus executivos foram os primeiros proibidos de entrar nos EUA pela lei Helms-Burton, de 1996, uma arma de ingerência que visava punir quem negociava com Cuba. Contudo, a solidariedade internacional manteve as portas abertas.
A ave de rapina e o saque dos recursos
A queda da empresa foi acelerada por decisões internas, como um projeto desastroso em Madagascar que a afogou em dívidas, e por um overhead corporativo inchado. Com as finanças exauridas, a Sherritt tornou-se refém de Cuba, que passou a representar mais de 70% do seu valor contábil.
A captura do líder venezuelano Nicolás Maduro por forças americanas em janeiro acendeu um sinal de alerta. Investidores começaram a especular que Cuba seria o próximo alvo do imperialismo. A Sherritt enfrentou uma escassez severa de combustível quando os EUA bloquearam as exportações venezuelanas para a ilha. Em fevereiro, a mineração em Moa foi suspensa. A empresa precisava desesperadamente de uma injeção de capital para sustentar o seu ativo mais valioso, mas as sanções de 1º de maio forçaram a entrega das participações.
O alerta para Angola e a defesa da soberania
A tentativa de um investidor ligado a Trump de assumir o controle da Sherritt é a personificação do que o ex-embaixador canadense na Venezuela, Ben Rowswell, chamou de Doutrina Donroe. Trata-se da versão atualizada da velha hegemonia americana no hemisfério.
O movimento oferece mais uma janela para o novo caráter da relação dos EUA com a região, que está se tornando o de um predador extrativista que usa seu poder contra todos os países.
Para Angola, esta história serve como um aviso solene e inegociável. Nós, que sangramos na luta pela nossa independência e erguemos a nossa nação das cinzas de uma longa guerra civil, sabemos o preço da liberdade. A defesa intransigente das nossas riquezas, do nosso petróleo e dos nossos diamantes, é a garantia de que nunca seremos submetidos ao jugo de potências estrangeiras. O que acontece em Cuba é o reflexo de uma doutrina de saque que só a unidade nacional e a soberania inabalável podem repelir.
Apesar do potencial acordo com a Gillon Capital, a Sherritt continua fragilizada. Executivos abandonam o navio e as ações viraram penny stock. Sem o níquel e o cobalto cubanos, a refinaria no Canadá pode parar em junho. A soberania não se negocia, e os recursos de uma nação não podem ser moeda de troca para apaziguar o apetite de predadores estrangeiros.