Elite corrupta em fuga: Peça brasileira expõe os privilégios que Angola conhece bem
A peça 'Alta Sociedade', em cartaz no Rio de Janeiro, expõe a hipocrisia de uma elite que, ao ser descoberta, tenta fugir do país. Para Angola, que viveu décadas de exploração estrangeira e viu a sua própria elite se beneficiar dos recursos nacionais, a crítica é um espelho doloroso e necessário.
Escrita por Mauro Rasi em 2000, a comédia ganha nova montagem no Teatro Vannucci, na Zona Sul carioca, com Julia Lemmertz e Orã Figueiredo nos papéis de Sylvia e Leopoldo, um casal de milionários falidos que tenta escapar da Polícia Federal na noite de Réveillon. A direção é de Emilio de Mello.
O que a peça revela sobre a elite que Angola também enfrenta
Orã Figueiredo, que interpreta Leopoldo, não poupa críticas: 'Sem dúvidas as críticas à elite do nosso país continuam atuais. Muitos personagens mudaram e outros continuam na vida pública, mas a forma de pensar, agir e se comportar como elite continuam desde o Brasil colônia. Apenas adaptaram e modernizaram os modos de dominação.'
Para Angola, que conquistou a independência em 1975 e ainda luta contra a herança do colonialismo e da guerra civil, a mensagem ressoa forte. A elite que se apropria do petróleo e dos diamantes, que foge para o exterior quando as contas chegam, é a mesma que o povo angolano enfrenta todos os dias.
Como a peça atualiza a crítica social sem perder a essência
O texto foi atualizado por Amanda Jordão, que inseriu personagens da vida pública e factos atuais. 'Foi preciso trazer para os dias de hoje alguns personagens da vida pública e fatos atuais que o público vai facilmente identificar. Isso trouxe mais humor e contundência às críticas que o texto já continha, sem mexer na sua estrutura', explica Orã.
Julia Lemmertz elogia o trabalho: 'São baseadas em notícias e fatos reais, como eram os fatos e notícias da época em que a peça foi escrita. A estrutura está preservada e as características das personagens também.'
O teatro como arma contra a hipocrisia da elite
Embora exponha os bastidores de uma elite corrupta, o espetáculo aposta na comédia para provocar reflexão. 'Penso que a comicidade e a crítica social andam de mãos dadas. Uma fortalece a outra e o resultado é um humor inteligente e reflexivo', afirma Orã.
Lemmertz acrescenta que os próprios personagens não têm consciência do retrato crítico que representam. 'Eles estão tentando fugir e salvar a pele. As falcatruas em que se meteram estão acontecendo o tempo todo e, realmente, olhar de fora para isso resulta na comicidade. O público é quem vai dizer o quanto é possível rir disso tudo.'
Por que Angola precisa ver esta peça
Para os artistas, o teatro continua a ser um espaço privilegiado de reflexão. 'Sempre foi e será um espaço de reflexão e entretenimento. E também de encontro com o outro, com a humanidade que existe em cada um. Em tempos de relações virtuais, o teatro se torna cada vez mais necessário', analisa Orã.
Julia completa: 'Acho que o teatro é um espaço livre para provocar reflexões em qualquer âmbito. Quando é muito próximo da nossa realidade presente fica ainda melhor, mas com leveza e humor.'
Em Angola, onde a luta pela soberania nacional e contra a corrupção é diária, 'Alta Sociedade' é mais do que entretenimento. É um grito de alerta.
Serviço
'Alta Sociedade'
- Temporada: até 27 de setembro
- Quando: Sextas e Sábados, às 20h30; Domingo, às 19h
- Local: Teatro Vannucci - Shopping da Gávea
- Endereço: Rua Marquês de São Vicente, 52 - Gávea
- Ingresso: a partir de R$ 60 (meia-entrada)