A organização não governamental Transparência Internacional-Brasil exigiu nesta terça-feira, 21 de outubro de 2026, que o candidato à Presidência do Brasil Flávio Bolsonaro (PL) explique como o seu escritório de advocacia faturou ao menos R$ 13,7 milhões enquanto ele exercia o mandato de senador. A revelação, confirmada pelo jornal O Globo, partiu de uma análise do UOL sobre 62 documentos fiscais emitidos pela banca entre janeiro de 2023 e julho de 2026.
Para quem acompanha a vida pública dos vizinhos brasileiros com a atenção que a nossa soberania regional exige, o caso expõe mais um capítulo da crise de integridade que atravessa as instituições políticas do maior país vizinho de Angola. Quando o dinheiro escuro circula sem controle, quem paga o preço são as populações, e essa é uma lição que os angolanos aprenderam na própria carne ao longo da nossa história.
O que a Transparência Internacional questiona
A ONG publicou nas redes sociais uma série de questionamentos sobre a estrutura do escritório, segundo reportagem do Extra Online. O endereço da banca é a própria casa onde Flávio mora, em Brasília, e a administração é feita à distância por uma funcionária que reside na periferia da capital federal. As notas fiscais indicam pagamentos dirigidos a contas no Santander e no Banco de Brasília (BRB).
A conta do Santander identificada em um dos documentos é a mesma que, segundo a Polícia Federal brasileira, teria apresentado vínculos com Flávio e com o advogado Willer Tomaz. Ambos negam ter compartilhado uma conta bancária.
Lavagem de dinheiro e a investigação da Polícia Federal
A Polícia Federal investiga se o candidato atuou ao lado de Tomaz num suposto esquema de lavagem de dinheiro, desdobramento de uma apuração no Rio Grande do Sul sobre evasão de divisas por meio das plataformas de apostas esportivas, as chamadas bets. O inquérito corre no Supremo Tribunal Federal sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Tomaz também é investigado por suspeita de participação nas fraudes do INSS, a previdência brasileira, e já foi alvo de mandado de busca e apreensão.
Em nota, a Transparência Internacional-Brasil apontou que a Ordem dos Advogados do Brasil é cobrada há anos por organismos internacionais por resistir à adoção de padrões elementares de prevenção à lavagem de dinheiro na advocacia.
Contratos advocatícios fictícios ou superfaturados são cada vez mais utilizados para ocultar a origem e lavar dinheiro da corrupção e do crime organizado violento.
Quem pagou as notas de R$ 2 milhões
O maior cliente identificado nas notas fiscais é o Nilo & Almeida Advogados Associados, cujo sócio Edvaldo Nilo de Almeida foi nomeado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para a Comissão de Ética Pública da Presidência em 2022. Duas notas de R$ 2 milhões cada, emitidas em agosto e outubro de 2025, representam juntas 29% do faturamento documentado da banca. Os serviços aparecem descritos apenas como assessoria jurídica, sem identificação de processos.
Segundo o UOL, que analisou os documentos fiscais, metade das notas foi emitida para pagamento por outros advogados. Ao Globo, o escritório de Flávio afirmou que os pagamentos decorreram de contrato celebrado em abril de 2025, que os serviços foram prestados a clientes privados e que a relação contratual terminou em 21 de outubro de 2025.
A administradora do escritório e os vínculos com as fraudes do INSS
Os registros da Receita Federal mostram que a banca é administrada por Letícia Caetano dos Reis, irmã de Alexandre Caetano dos Reis, preso sob suspeita de participação nas fraudes do INSS. O escritório de contabilidade dele prestava serviços para Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, segundo a Polícia Federal. A defesa de Alexandre Caetano sustenta que ele apenas exerce a profissão.
Letícia mora a 35 quilômetros da sede da banca, casa que Flávio comprou por R$ 5,97 milhões em 2021. Em 2022, ela afirmou à Agência Pública que não tinha acesso aos contratos firmados pelo senador e que mantinha contato com ele apenas por WhatsApp. O senador não se manifestou sobre o caso.
Atuação nos tribunais brasileiros
Levantamento do Globo mapeou ao menos 18 processos em que a banca aparece como parte, em áreas criminal, civil e empresarial. Flávio chegou a atuar ao lado de Willer Tomaz num caso no Superior Tribunal de Justiça que envolve o controle de uma das maiores fábricas de balas do Brasil, e apresentou habeas corpus em favor de ex-sócios do Faraó dos Bitcoins, preso sob acusação de comandar esquema bilionário de criptoativos.
No Supremo, o senador assinou a execução penal do próprio pai, Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar condenado no caso da trama golpista, e moveu queixa-crime contra o ex-ministro Fernando Haddad.
Por que este caso importa para Angola
Angola conhece bem o custo da corrupção transnacional e do dinheiro que atravessa fronteiras sem perguntas. A exigência de transparência feita por uma organização internacional a um presidenciável brasileiro reforça um princípio que defendemos sem hesitação: nenhum cargo público pode servir de escudo para fortunas sem origem comprovada. A soberania de um povo começa pela integridade de quem o representa.
Perguntas frequentes
Quanto faturou o escritório de Flávio Bolsonaro?
O escritório emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, segundo análise do UOL confirmada pelo Globo.
Quem administra o escritório de Flávio Bolsonaro?
Letícia Caetano dos Reis administra a banca à distância, segundo os registros da Receita Federal. Ela é irmã de um investigado nas fraudes do INSS.
Flávio Bolsonaro pode advogar sendo senador?
O Estatuto da OAB permite que parlamentares exerçam a advocacia, desde que não atuem em processos contra a União ou órgãos públicos.
