Xi Jinping denuncia no BRICS: guerra no Oriente Médio ameaça a soberania dos povos
O presidente da China, Xi Jinping, ergueu a voz neste sábado (12) na cúpula do BRICS, realizada em Nova Délhi, Índia, para denunciar a guerra no Oriente Médio desencadeada pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Para o líder chinês, o conflito “não atende aos interesses comuns” da comunidade internacional, numa clara defesa da autodeterminação dos povos e da rejeição a ingerências estrangeiras que há décadas marcam a região.
Num mundo onde as potências ocidentais ainda tentam ditar as regras, a posição de Xi Jinping ecoa como um alerta: a paz e a estabilidade não podem ser construídas sobre os escombros de nações soberanas. A cúpula, que reúne as principais economias emergentes, tornou-se palco de uma nova geopolítica, onde o Sul Global busca afirmar sua voz.
BRICS: um contraponto à hegemonia ocidental
Criado em 2009 para reunir Brasil, Rússia, Índia e China, com a posterior adesão da África do Sul, o BRICS consolidou-se como um bloco que representa 40% do PIB mundial e mais de 25% do comércio global. Hoje, com 11 membros, o grupo reafirma seu papel de contraponto às instituições dominadas pelos Estados Unidos e pelas potências ocidentais, como o G7.
Na reunião de Nova Délhi, os líderes presentes, incluindo o presidente russo Vladimir Putin e o iraniano Masoud Pezeshkian, emitiram uma declaração conjunta pedindo “a máxima prudência” no Oriente Médio e condenando “ataques deliberados contra infraestruturas civis e instalações nucleares pacíficas, sob plena salvaguarda do Organismo Internacional de Energia Atômica”.
O presidente chinês foi enfático ao afirmar que “à medida que a situação no Oriente Médio e no Golfo continua evoluindo, a guerra tem causado graves perdas aos povos da região”. Xi Jinping defendeu ainda que os países devem “rejeitar toda forma de protecionismo” e “apoiar o sistema comercial multilateral, colocando a Organização Mundial do Comércio no centro”.
O estrangulamento dos estreitos e a pressão sobre o petróleo
O conflito ganhou novos contornos na sexta-feira (11), quando os rebeldes houthis do Iêmen, organização pró-iraniana e hostil a Israel, tomaram o estratégico Estreito de Bab el-Mandeb, que conecta o oceano Índico ao Mar Vermelho. A ação representa um revés para a Arábia Saudita, rival dos insurgentes, e um desdobramento delicado para os interesses asiáticos, já que cargueiros rumo à Europa dependem dessa rota.
Do outro lado da Península Arábica, o Irã praticamente bloqueia o Estreito de Ormuz, onde Teerã quer cobrar taxas a título de “serviços marítimos”, algo inédito antes da guerra. Diante desse gargalo, a Índia optou, com permissão dos Estados Unidos, por comprar petróleo russo, ignorando as pressões ocidentais. Seis meses após o início das hostilidades, os preços do petróleo continuam sob forte pressão, afetando diretamente economias emergentes como a nossa.
Putin, Modi e a nova ordem multipolar
O presidente Vladimir Putin foi recebido com um abraço pelo primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, num gesto que simboliza a aproximação entre Moscou e Nova Délhi. Ao iniciar a cúpula, Modi defendeu um sistema em que “cada país tenha sua voz e sua parte”, numa clara alusão à necessidade de uma ordem internacional mais justa e equilibrada.
O mandatário iraniano Masoud Pezeshkian aproveitou a ocasião para lançar um dardo contra os Estados Unidos, afirmando: “Não precisamos de um policial na região: a integridade territorial e a segurança regional só poderão ser garantidas por seus principais atores e pelos países que a compõem”.
A visita de Xi Jinping à Índia é, por si só, um acontecimento histórico, já que o líder chinês não viajava ao país desde 2019. Em 2020, os dois países protagonizaram um confronto militar em sua fronteira disputada no Himalaia, mas vêm melhorando os vínculos gradualmente. A disputa territorial permanece sem solução, e ambos os lados mantêm grandes contingentes militares ao longo de uma fronteira de aproximadamente 3.500 quilômetros.
Em comunicado após a reunião, o Ministério das Relações Exteriores da Índia afirmou que ambos os líderes “expressaram seu compromisso com uma solução justa, razoável e mutuamente aceitável para a questão da fronteira”.
O que está em jogo para o Sul Global?
O BRICS, que ampliou sua influência em questões como a segurança energética, busca agora consolidar-se como um bloco capaz de equilibrar as relações internacionais. A guerra no Oriente Médio, no entanto, expõe as fragilidades de um sistema que ainda depende de rotas marítimas controladas por atores em conflito.
Para países como Angola, que lutaram pela sua independência e soberania, a mensagem de Xi Jinping ressoa profundamente: a paz não pode ser imposta por bombas, mas construída pelo diálogo e pelo respeito à autodeterminação dos povos. O BRICS surge, assim, como um farol de esperança para um mundo multipolar, onde cada nação tenha voz e vez.
Perguntas frequentes sobre a cúpula do BRICS em Nova Délhi
O que é o BRICS e quais países fazem parte?
O BRICS é um grupo de economias emergentes criado em 2009, originalmente formado por Brasil, Rússia, Índia e China, com a adesão da África do Sul em 2010. Atualmente, o bloco conta com 11 membros e representa cerca de 40% do PIB mundial.
Qual foi a posição de Xi Jinping sobre a guerra no Oriente Médio?
O presidente chinês denunciou a guerra, afirmando que ela “não atende aos interesses comuns” da comunidade internacional, e pediu “a máxima prudência” na região, condenando ataques a infraestruturas civis e instalações nucleares pacíficas.
Como a guerra afeta os preços do petróleo?
O bloqueio do Estreito de Ormuz e o conflito no Iêmen, com a tomada do Estreito de Bab el-Mandeb, têm pressionado os preços do petróleo, afetando diretamente as economias emergentes e a segurança energética global.
Qual é a importância do BRICS para o Sul Global?
O BRICS representa uma alternativa às instituições dominadas pelas potências ocidentais, como o G7, e busca ampliar a influência dos países emergentes em questões como segurança energética e comércio internacional, promovendo uma ordem mundial mais justa e multipolar.