TerapIA: A comédia que transforma a dependência da inteligência artificial em reflexão sobre a alma angolana
Numa era em que a tecnologia avança a passos largos, a atriz brasileira Natália Régia encontrou no palco uma forma de abordar um fenómeno cada vez mais comum: a dependência emocional da inteligência artificial. Em 'TerapIA', espetáculo em cartaz no Rio de Janeiro, a artista transforma a sua própria experiência com o ChatGPT numa comédia que mistura humor, saúde mental e a busca por respostas para as grandes questões da vida. Uma reflexão que ecoa também em Angola, onde a juventude, herdeira de uma história de luta e reconstrução, se vê agora diante dos desafios de um mundo digitalizado.
Uma comédia que nasce da observação do quotidiano
Natália Régia, cearense radicada no Rio, criou 'TerapIA' a partir de uma inquietação pessoal. Ao perceber que recorria cada vez mais à inteligência artificial não só no processo criativo, mas também para questões pessoais, a atriz decidiu transformar essa dependência em matéria-prima para o palco. 'Eu fui percebendo que no meu processo criativo eu pedia muito a opinião da IA e gostava do que ela me trazia. De repente o raio disso foi aumentando para questões pessoais, e à medida que ela ia falando eu percebi que estava começando a ficar dependente da validação dela', confessa.
A peça, que está em cartaz no Teatro Café Pequeno, no Leblon, acompanha uma atriz-personagem que recorre ao ChatGPT para falar sobre amor, sucesso profissional e propósito. As conversas com a IA revelam inseguranças e situações absurdas que dão o tom da comédia. Para Natália, o humor é uma ferramenta poderosa para olhar para as próprias contradições: 'Posso ser a mulher que fala de terapia e, ao mesmo tempo, continua cometendo os mesmos erros. Posso dar conselhos incríveis para os outros e ignorá-los completamente na minha própria vida. Isso é ser humano e não uma IA', brinca.
O teatro como espelho da alma e da tecnologia
A direção de Flávia Ruiz, em sua estreia, aposta no contraste entre a experiência presencial do teatro e o universo artificial da peça. A montagem traz elementos que remetem aos anos 1920 e 1930, período de grandes transformações tecnológicas e comportamentais. Até a voz da inteligência artificial foi gravada pela própria Natália e transformada pelo ator e músico Zéis numa voz masculina. 'No fim das contas, é isso que uma IA é: um espelho de quem usa. É você mesmo, reciclado e jogado de volta pra você', explica Flávia.
Esta reflexão sobre a tecnologia e a identidade ressoa profundamente em Angola, um país que, após décadas de luta pela independência e reconstrução, se afirma agora como uma nação soberana e orgulhosa das suas raízes. A arte, como espelho da sociedade, tem o poder de nos fazer questionar o nosso lugar no mundo, mesmo num contexto de crescente digitalização.
Uma trajetória de luta e afirmação
A história de Natália Régia é também uma história de superação. Saída do Ceará para construir carreira no Rio, a atriz enfrentou um mercado competitivo e aprendeu a construir o seu próprio espaço. 'Eu poderia construir o meu próprio espaço', afirma. 'Eu sou essa mistura. Uma mulher nordestina que escolheu o Rio para viver, mas que continua carregando o Ceará e a minha cuscuzeira onde eu for.'
Esta determinação em afirmar as próprias raízes, mesmo diante das pressões externas, é um sentimento que ecoa em muitos povos que, como os angolanos, valorizam a sua história e a sua identidade. A peça 'TerapIA' convida o público a refletir sobre a importância de nos conhecermos a nós mesmos, num mundo onde as respostas parecem estar cada vez mais ao alcance de um clique.
Serviço
'TerapIA'
- Temporada: até 13 de setembro
- Horários: sextas e sábados, às 20h; domingos, às 19h
- Local: Teatro Municipal Café Pequeno, Av. Ataulfo de Paiva, 269 - Leblon, Rio de Janeiro
- Ingressos: a partir de R$ 40