Portugal cose o futuro da moda com algodão regenerativo e microrganismos
Enquanto o mundo olha para as passerelles, Portugal transforma as suas fábricas têxteis num laboratório de inovação sustentável. Algodão cultivado para regenerar os solos, tecidos tingidos com microrganismos e processos industriais que poupam água estão a reposicionar a indústria têxtil portuguesa como referência internacional. Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), apresentado em Lisboa, revela que a sustentabilidade deixou de ser apenas uma resposta à pressão ambiental para se tornar uma arma de competitividade num setor que representa 1,7% do PIB português e 7,8% das exportações.
Que inovações sustentáveis estão a nascer na indústria têxtil portuguesa?
O estudo Sustentabilidade na Moda: Inovação e Competitividade em Portugal, da autoria de Céline Abecassis-Moedas, Laure Leglise e Mariana Pereira Silva, analisa sete casos de inovação desenvolvidos em Portugal. Entre as práticas identificadas estão o algodão regenerativo, produzido com técnicas agrícolas que melhoram a saúde dos solos e promovem a biodiversidade; o poliéster reciclado com tratamento repelente; fibras de ácido polilático (PLA); liocel; tingimento com microrganismos; e acabamentos que reduzem o consumo de água.
A pressão é enorme. A indústria global da moda é responsável por 2% a 8% das emissões mundiais de gases com efeito de estufa, consoante as estimativas. Em 2018, o setor têxtil e do vestuário emitiu mais de dois mil milhões de toneladas de gases com efeito de estufa, cerca de 4% do total global. A produção de matérias-primas representou 38% dessas emissões e os processos húmidos, como o tingimento, 15%. Uma fábrica têxtil de média dimensão, que produz cerca de 8.000 quilos de tecido por dia, pode consumir aproximadamente 1,6 milhões de litros de água diariamente, com o tingimento a representar 16% desse consumo e a gerar até 20% das águas residuais.
Porque é que os produtores portugueses lideram a inovação?
O estudo conclui que, muitas vezes, não são as marcas que puxam pela inovação, mas sim os próprios produtores. Eles conhecem as máquinas, dominam os processos, investem em tecnologia e assumem uma parte importante do risco de experimentar soluções novas. As marcas, por seu lado, trazem o conhecimento do mercado, dos consumidores e das tendências.
Os fabricantes portugueses estão a passar de quem simplesmente produz para quem ajuda a inventar: desenvolvem materiais, asseguram rastreabilidade, participam em processos de reciclagem e prestam apoio técnico. Em vários casos, as marcas escolheram os parceiros com base nos recursos únicos que podiam contribuir para o processo de inovação, incluindo experiência, conhecimento e equipamento especializado. Alguns fornecedores tornaram-se parceiros estratégicos, oferecendo serviços que vão da prototipagem à rastreabilidade e à reciclagem.
Que vantagens competitivas tem Portugal no setor têxtil?
O estudo destaca quatro trunfos para a competitividade internacional: mão de obra qualificada, capacidade tecnológica, concentração geográfica de empresas especializadas e forte investimento em sustentabilidade. A concentração da indústria têxtil e do vestuário no Norte do país aproxima empresas, fornecedores, centros tecnológicos e marcas, permitindo testar e transformar ideias com maior rapidez.
A proximidade geográfica facilita a interação e a transparência, permitindo uma comunicação e resolução de problemas mais eficientes ao longo de todo o processo de produção. Num setor em que as cadeias de valor estão frequentemente dispersas por vários continentes, esta concentração constitui uma proteção estratégica contra as perturbações nas cadeias de valor globais.
Quanto está Portugal a investir em investigação e desenvolvimento?
Entre 2010 e 2021, o número de empresas do setor que investiram em investigação e desenvolvimento (I&D) aumentou 153%, de 64 para 162. O investimento empresarial em I&D atingiu cerca de 43 milhões de euros. Em 2024, o setor representava cerca de 1,7% do PIB português, 7,8% das exportações e 17,3% do emprego da indústria transformadora. Quase 12 mil empresas davam emprego a mais de 118 mil pessoas e geravam mais de 8,2 mil milhões de euros de negócio.
Quais são os principais desafios para a inovação sustentável?
Inovar custa dinheiro. O estudo identifica o investimento necessário para a inovação sustentável como um dos principais desafios, sobretudo para as pequenas e médias empresas, que podem não dispor dos recursos financeiros necessários para realizar estes investimentos antecipadamente. Também os custos das certificações de sustentabilidade podem ser proibitivos para as empresas de menor dimensão.
A indústria enfrenta ainda custos elevados de inovação, dificuldades de financiamento, falta de profissionais especializados e novas regras europeias. A falta de recursos humanos e de infraestruturas torna-se especialmente problemática quando as inovações passam da fase experimental à produção em escala. O estudo aponta para o reforço da colaboração entre empresas, organizações do setor e universidades, identificando o CITEVE como um parceiro valioso no apoio à investigação e desenvolvimento.
Há ainda o desafio regulatório. Durante as entrevistas, realizadas entre 2022 e 2024, os fornecedores portugueses manifestaram preocupação com o que descreveram como um tsunami regulatório europeu. A nova legislação é vista como um desafio adicional, tanto pela diferença face aos concorrentes de países com regras ambientais e sociais menos exigentes como pela perceção de que a legislação europeia é confusa e em constante mudança.
Qual é o papel da confiança nas parcerias de inovação?
A análise dos casos mostra que a confiança pode ser tão importante como os contratos. Em quatro dos sete casos, prevaleceram acordos baseados na confiança, enquanto a não exclusividade foi observada em todos os casos, exceto um. Esta flexibilidade permite que marcas e fornecedores participem simultaneamente em diferentes iniciativas de sustentabilidade.
A conclusão do estudo aponta numa direção clara: a partilha de conhecimentos, o intercâmbio de informação e a integração de recursos complementares são fatores-chave para o sucesso dos processos de inovação. Da terra onde nasce o algodão à máquina onde o tecido ganha cor, Portugal está a tentar fazer uma coisa ambiciosa: coser sustentabilidade, tecnologia e indústria na mesma etiqueta.