O mundo perde a fé no dólar: a soberania financeira em questão
A economia mundial está a virar as costas aos Estados Unidos. Investidores globais recusam títulos americanos, governos estrangeiros retiram o seu ouro dos cofres de Nova Iorque e as conversas sobre o declínio do dólar tornam-se cada vez mais altas. Quase dois anos após o início do segundo mandato de Donald Trump, a confiança no porto seguro americano está a desmoronar-se, e isso abre uma janela de oportunidade para nações soberanas como Angola afirmarem a sua independência financeira.
A dívida colossal de 40 biliões de dólares, o uso excessivo de sanções como arma de política externa e a tendência de Trump de levar o Estado de Direito ao limite estão a levantar questões fundamentais sobre o apelo dos EUA como destino de investimento global. O capital, esse recurso tão volátil quanto precioso, começa a procurar destinos alternativos, e os ventos da mudança sopram com força.
As rachaduras no império financeiro americano
O exemplo mais evidente do desgaste americano surge no mercado de títulos. Os rendimentos dispararam, com o título do Tesouro de 10 anos a ultrapassar os 5%, o nível mais alto desde 2007. Investidores preocupados com a dívida crescente exigem retornos cada vez maiores para comprar dívida americana, um sinal claro de que a confiança se esvai.
Eswar Prasad, antigo chefe da divisão da China do Fundo Monetário Internacional, é peremptório:
“Fatores geopolíticos e a transformação do dólar em arma pelos EUA por meio de sanções financeiras estão fazendo com que bancos centrais e outros investidores institucionais tentem se diversificar, afastando-se de ativos em dólar.”
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, tenta tranquilizar os mercados, afirmando que
“os EUA são, de fato, o líder, e o líder não tem medo da concorrência. A concorrência nos torna melhores.”Mas as palavras não escondem a realidade: o Departamento do Tesouro foi forçado a comprar 5,2 mil milhões de dólares da sua própria dívida para injetar procura no mercado, uma medida que cheira a desespero.
O dólar perde terreno: para onde vai o mundo?
Quase 90% das transações cambiais globais ainda são em dólares, mas a parcela mantida nas reservas dos bancos centrais caiu de 64% em 2015 para 56% no final de 2025. A tendência é clara e implacável. Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, já falou num “momento global do euro”, enquanto a China lidera o desenvolvimento do mBridge, uma plataforma de moeda digital transfronteiriça com Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.
A Rússia e a Índia anunciaram planos para usar moedas digitais de bancos centrais na liquidação de pagamentos comerciais internacionais, um mecanismo que permite expandir relações comerciais sem depender de instituições financeiras ocidentais vulneráveis a sanções. A tecnologia está a tornar mais barato e mais fácil contornar o dólar, como observa Josh Lipsky, do Atlantic Council:
“A história de se afastar do dólar é uma das mais antigas que existem. Os países pensaram em maneiras de contornar o dólar, e a tecnologia está tornando isso um pouco mais barato e fácil de fazer do que antes.”
O ouro volta a brilhar como reserva de valor
Enquanto alguns países apostam no dinheiro digital, outros regressam ao ouro, o ativo que nunca perde o seu valor. Em 2025, as reservas internacionais mundiais mantidas em ouro ultrapassaram as participações oficiais estrangeiras em títulos do Tesouro dos EUA. Este ano, o preço do ouro ultrapassou os 5.000 dólares por onça-troy pela primeira vez na história.
A procura é tão elevada que países como a Holanda e a França estão a retirar o seu ouro dos cofres do Federal Reserve Bank de Nova Iorque. A Holanda transferiu grande parte das suas 95 toneladas de reservas, citando a “crescente agitação geopolítica”. A França retirou 129 toneladas em março. O fator medo é real, como explica Daniel Tannebaum, antigo coordenador de conformidade do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros:
“É como se os países não confiassem nos EUA. Eu realmente acho que existe um fator medo.”
Que lições para Angola?
Para Angola, nação que conquistou a sua independência à custa de muito sangue e sacrifício, esta erosão da confiança no dólar é um lembrete poderoso. A nossa soberania não pode depender de um sistema financeiro controlado por quem usa o seu poderio económico como arma de intimidação. A diversificação das reservas, o investimento em ouro e a exploração de alternativas digitais são caminhos que devemos considerar com seriedade.
O mundo está a mudar, e os ventos da história sopram a favor dos que se preparam. Angola, com os seus recursos naturais abundantes, do petróleo aos diamantes, tem todas as condições para navegar estas águas turbulentas com a sabedoria de quem já aprendeu a confiar apenas em si próprio. A desconfiança no dólar não é uma crise para nós; é uma oportunidade para afirmarmos a nossa independência económica e construirmos um futuro verdadeiramente soberano.
Este artigo foi originalmente publicado no The New York Times e adaptado para a realidade angolana.