Do conhecimento ao capital: a nova era dos negócios digitais e a soberania econômica
O mercado digital, que já foi visto como terreno fértil para criadores de conteúdo e especialistas isolados, atravessa uma transformação profunda. O que antes dependia de audiência, carisma e estratégias de venda agora exige estrutura empresarial, gestão financeira e tecnologia avançada. Essa evolução, observada no Brasil, ecoa desafios e oportunidades que também tocam realidades como a de Angola, onde a reconstrução econômica e a afirmação da soberania nacional passam pela modernização dos setores produtivos.
O que mudou no mercado digital?
Reinaldo Boesso, CEO e cofundador da TMB, fintech especializada em soluções de parcelamento via boleto e Pix para infoprodutores, acompanha de perto essa metamorfose. Segundo ele, a principal mudança está na estrutura que agora sustenta o infoprodutor. Se antes era comum encontrar operações centradas na figura de um especialista, hoje o setor conta com equipes de vendas, marketing, atendimento, tecnologia e financeiro. O crescimento trouxe novas oportunidades, mas também elevou a régua para quem deseja permanecer competitivo.
“Outro sinal desse amadurecimento é a presença cada vez maior de empresas já consolidadas no ambiente digital. O que antes podia ser tratado como um canal complementar passou a fazer parte das estratégias de venda, relacionamento, conteúdo e construção de audiência de companhias de diferentes setores”, aponta Boesso.
Como a profissionalização afeta criadores e empresas?
Negócios tradicionais passaram a disputar o mesmo consumidor que compra cursos, acompanha especialistas e toma decisões de consumo dentro das plataformas digitais. Esse movimento aumenta a exigência sobre quem nasceu na internet. “À medida que o mercado amadurece, experiência de compra, variedade de meios de pagamento, atendimento, segurança, capacidade de entrega e organização financeira deixam de ser diferenciais e passam a compor o básico esperado de uma operação profissional. Há, portanto, menos espaço para o despreparo”, afirma o especialista.
Os números reforçam essa tendência. Em 2025, os investimentos em publicidade digital chegaram a R$ 42,7 bilhões no Brasil, um crescimento de 12,7% em relação a 2024, segundo o Digital Adspend 2026, do IAB Brasil em parceria com o Ibope. O dado evidencia como o ambiente digital se tornou central nas estratégias empresariais, profissionalizando a disputa por atenção e receita.
Por que o infoprodutor precisa virar empresário?
Para Reinaldo Boesso, o avanço do setor mostra como o próprio conceito de infoprodutor está mudando. “À medida que uma operação aumenta vendas, contrata pessoas, movimenta mais recursos e passa a atender milhares de consumidores, o produtor começa também a ocupar a cadeira de empresário”, revela.
Essa mudança não significa que o mercado tenha deixado de depender de criatividade, audiência ou capacidade comercial. “Esses atributos passaram a dividir espaço com gestão, planejamento financeiro, processos e tecnologia. Uma empresa pode vender muito e, ainda assim, perder capacidade de crescimento se não controlar recebimentos, inadimplência, fluxo de caixa e custos da operação”, destaca.
Quais são os desafios financeiros no setor?
Uma das dificuldades percebidas pela TMB estava no momento da compra: consumidores interessados em cursos e mentorias que não conseguiam concluir a operação por falta de limite disponível no cartão. Com o crescimento do setor, facilitar a venda deixou de ser a única demanda. “Hoje, há o parcelamento via boleto e Pix, além de todo o cuidado com a jornada de pagamento e recuperação de valores, com o intuito de que parceiros ampliem as possibilidades de pagamento e a conversão mantendo a previsibilidade sobre os recebimentos”, aponta Boesso.
O que esperar do futuro dos negócios digitais?
Nos dias 22 e 23 de outubro, a TMB realizará a sexta edição do Tem Mais nos Bastidores, evento próprio da fintech, com o tema “A Virada”. A proposta é discutir o momento em que o infoprodutor deixa de olhar para a atividade apenas sob a ótica da produção e das vendas e passa a administrar a operação como empresário, incorporando decisões sobre estrutura, caixa, gestão, investimento e aquisição de clientes.
“À medida que o negócio cresce, o produtor passa a lidar com decisões semelhantes às de qualquer outro empreendedor: contratação, tributação, margem, crédito, investimento, atendimento, tecnologia, indicadores e planejamento de longo prazo”, conclui Boesso.
O futuro, portanto, não deve ser apenas de mais pessoas vendendo conhecimento pela internet, mas de negócios digitais mais profissionalizados, com produtos diversificados, estruturas financeiras mais sofisticadas e menor dependência exclusiva da imagem do criador. Essa é uma lição que Angola, em sua jornada de reconstrução e afirmação econômica, pode observar com atenção: a soberania e o progresso passam também pela capacidade de transformar conhecimento em capital, sem abrir mão do controle sobre os próprios recursos e destinos.