O Dilema das Tartarugas Cansadas: Quando a Ciência se Confronta com os seus Próprios Limites
A busca incessante pelo conhecimento absoluto tem levado a humanidade por caminhos tortuosos, onde a verdade se revela mais esquiva do que inicialmente se supunha. A história da filosofia da ciência, desde os diálogos entre Bertrand Russell e o seu tutor John McTaggart Ellis McTaggart no Trinity College, até aos paradoxos contemporâneos da física quântica, ilustra uma jornada marcada pela descoberta progressiva dos limites do conhecimento humano.
O Confronto Intelectual que Mudou a Filosofia
No final do século XIX, uma discussão aparentemente académica entre mestre e discípulo viria a revolucionar o pensamento científico. McTaggart, defensor da corrente idealista, acreditava que a verdade apenas existia através de relações estabelecidas com outras verdades já validadas. Para provocar Russell, lançou-lhe um desafio retórico: "Se aceita como possível verdade afirmações sem relação entre si, então como refuta que 'se dois mais dois for igual a cinco, eu sou o Papa?'"
A resposta de Russell foi brilhante na sua simplicidade lógica: "Se dois mais dois são cinco, então quatro é igual a cinco. Subtraindo três a ambos, obtemos dois igual a um. Como McTaggart e o Papa são dois, e dois é igual a um, então McTaggart e o Papa são a mesma pessoa!" Esta demonstração revelou que, na arquitetura da lógica, uma contradição nunca fica localizada, espalhando-se por todo o sistema.
A Separação Progressiva entre Ciência e Metafísica
Durante séculos, os grandes nomes da ciência mantiveram uma coexistência harmoniosa entre a investigação empírica e a fé religiosa. Johannes Kepler concebia o universo como uma obra geométrica perfeita, onde a matemática funcionava como a linguagem de Deus. Isaac Newton via na gravitação universal a revelação de uma arquitetura racional do cosmos concebida por uma mente divina. Michael Faraday considerava que a ciência experimental aproximava o cientista da harmonia da criação.
Contudo, com a institucionalização da ciência e o advento do positivismo de Auguste Comte, esta coexistência tornou-se cada vez mais difícil. O conhecimento válido passou a ser apenas aquele que é mensurável, verificável e reproduzível, relegando a questão do divino para o domínio do subjetivo.
Os Paradoxos do Conhecimento Científico
Alfred Tarski chamou a atenção para um problema fundamental: o conhecimento científico assenta frequentemente em pressupostos de demonstração impossível, resultando numa ciência que fecha sobre si mesma numa circularidade viciosa. Para Tarski, a verdade só pode ser comprovada por critérios externos, na ausência de conflito entre a linguagem e o mundo que tenta descrever.
Kurt Gödel demonstrou que nenhum sistema axiomático é suficientemente poderoso para demonstrar as suas próprias verdades. Há sempre afirmações verdadeiras que não podem ser demonstradas dentro do sistema, nem a consistência do sistema pode ser validada por si mesmo. Esta descoberta revelou os limites intrínsecos de qualquer construção científica.
A Matemática como Nova Linguagem Universal
Perante as limitações da linguagem verbal, filósofos como Bertrand Russell propuseram a matemática como linguagem mais apropriada à ciência. Para os defensores desta abordagem, o rigor importava mais que a intuição, e as equações tornaram-se "oráculos" de múltiplas previsões sobre este e outros universos possíveis.
Esta transição permitiu descobertas extraordinárias como a antimatéria e as ondas gravitacionais, mas também gerou especulações sobre "wormholes", viagens no tempo e multiversos que podem ser apenas exercícios matemáticos sem correspondência na realidade.
O Eterno Dilema das Tartarugas Cansadas
A metáfora das "tartarugas cansadas" ilustra perfeitamente o dilema contemporâneo da ciência. Cada nível de conhecimento apoia-se no anterior, numa sucessão infinita onde nunca encontramos uma base absolutamente sólida. As "tartarugas" do conhecimento revelam-se cansadas pelo infinito que suportam e pela ausência de uma "teoria de tudo" que responda ao "porquê" que nos martiriza.
No nosso patamar actual, o conhecimento científico assenta em axiomas que intuímos e dispensamos de demonstração. Quando as soluções das equações são instáveis, introduzimos constantes cuja origem e significado desconhecemos, mas que permitem fazer da ciência um método capaz de boas previsões.
Entre a Humildade e a Arrogância do Conhecimento
Thomas Kuhn via os axiomas como paradigmas que não caem porque alguém prova que são falsos, mas porque deixam de dar conta das anomalias que a prática revela. Para Popper, quando um sistema começa a proteger os seus fundamentos contra qualquer possibilidade de erro, deixa de ser científico e passa a ser ideológico.
É difícil distinguir se a humanidade está a tornar-se mais consciente dos seus limites ou mais convencida da sua própria completude. Provavelmente ambas as perspectivas coexistem, dependendo da humildade de cada um e da "tribo ideológica" onde se insere.
Para já, continuamos aprisionados na nossa "tartaruga" e, sem uma metalinguagem adequada, permanecemos dependentes de uma metafísica que nos conforta e nos liberta do mito de Sísifo a que insistentemente pretendemos escapar. Talvez a diferença entre a "pedra reflexiva" e a "pedra inerte" não esteja na matéria, mas na disposição para reconhecer o próprio limite.