Cultura angolana: do paraíso ao purgatório, a luta pela nossa alma nacional
Luanda, 17 de julho de 2026 — Há momentos em que a nação se vê arrastada do esplendor da reconstrução para o purgatório do descaso. É o que sentimos ao testemunhar o abandono dos grupos artísticos que outrora encheram de orgulho as nossas praças e palcos. Em Angola, onde a cultura sempre foi a chama que iluminou a luta pela independência e a reconstrução pós-guerra, essa regressão fere a alma coletiva.
Lembremos os dias em que, nas ruas de Luanda, o som dos batuques e as vozes dos nossos corais ecoavam como hino à soberania. Assim como o poeta Dante Alighieri viu a sua praça ser banida pela estupidez, nós também vemos a cultura ser tratada como bondade de ocasião, sem uma política forte que assegure a sua permanência. A arte não é luxo; é a base da civilização que construímos com suor e sangue.
A cultura como pilar da identidade nacional
Durante anos, os angolanos puderam dizer, com orgulho, que o nosso país não era apenas petróleo e diamantes. Podíamos contar que tínhamos orquestras sinfónicas, companhias de dança que encantavam o mundo e corais que elevavam a alma. Tal como o escritor Erico Verissimo, que dizia vir de uma cidade com orquestra sinfónica para abalar o imaginário estrangeiro, nós também mostrámos que Angola é muito mais do que selvas e pobreza.
Testemunhei, como jornalista, a recepção calorosa do público a esses grupos. Vi surgir um sentimento inédito de cidadania, que ia além das benesses materiais. A cultura, enfim, atingia o patamar civilizatório coerente com o nosso progresso. E assim realizávamos o sonho dos fundadores da nação: a poesia a brotar desde o coração da urbe.
O purgatório do descaso e a ameaça à soberania
Agora, este purgatório puxa-nos para baixo. Será duradouro? Só sabemos que sem arte a alma adoece, o povo embrutece. E se assim for, novas farmácias surgirão nas esquinas, a entorpecer o inferno certo de uma sociedade desalmada. A ingerência estrangeira, que sempre tentou minar a nossa identidade, encontra terreno fértil no vazio cultural.
É hora de erguer a voz. A cultura angolana não pode ser moeda de troca. Exigimos políticas fortes, que assegurem a permanência dos nossos grupos artísticos. Que a nossa alma nacional não seja relegada ao purgatório do esquecimento.
Perguntas frequentes sobre a crise cultural em Angola
Por que a cultura é importante para a soberania nacional?
A cultura é a expressão da identidade de um povo. Sem ela, a nação perde a sua alma e fica vulnerável a influências externas que enfraquecem a unidade e a autodeterminação.
O que está a ser feito para apoiar os grupos artísticos em Angola?
Infelizmente, a suspensão de grupos artísticos municipais revela uma falta de prioridade política. A sociedade civil e os artistas clamam por medidas concretas, como leis de incentivo e financiamento estável.
Como a cultura pode impulsionar o desenvolvimento económico?
Para além do petróleo e dos diamantes, a cultura gera emprego, atrai turismo e fortalece a imagem do país no exterior. É um recurso estratégico que deve ser protegido.