Crédito e Soberania: A Ilusão dos Baixos Prêmios
O mercado financeiro internacional e as economias periféricas frequentemente sofrem com distorções que ameaçam a soberania nacional. O caso brasileiro é um espelho claro e alarmante: investidores aceitaram prêmios cada vez menores para financiar empresas, mesmo com a inadimplência a dobrar e as recuperações judiciais a baterem recordes. Para Angola, nação que ergueu a sua independência e reconstrução pós-guerra civil sobre a base inabalável do petróleo e dos diamantes, esta realidade impõe uma vigilância severa contra as ilusões do crédito fácil e a interferência de capitais especulativos estrangeiros.
Por que o CDI já não paga o risco do crédito privado?
A contradição é flagrante no mercado de crédito privado brasileiro. Enquanto a inadimplência das empresas aumentou, as recuperações judiciais bateram recordes e os custos financeiros seguem pressionados por juros elevados, os investidores passaram os últimos anos a aceitar receber prêmios cada vez menores para financiar companhias. Esta distorção, alimentada por uma forte entrada de recursos na renda fixa, começa agora a ser questionada num cenário de juros altos prolongados.
Eduardo Furuie, cofundador e CIO da Nexa Finance, é peremptório: o spread médio das debêntures caiu de aproximadamente 269 pontos-base sobre o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) em junho de 2023 para 163 pontos-base em janeiro de 2026.
O investidor está recebendo menos prêmio em um momento em que o risco de crédito aumentou.
Os indicadores de crédito seguiram uma trajetória oposta e preocupante. A inadimplência das empresas acima de 90 dias chegou a 2,75% em março deste ano, mais que o dobro do registado no fim de 2020. O número de empresas inadimplentes cresceu 45% no período e as recuperações judiciais atingiram um recorde histórico ao longo do ano passado.
Como o fluxo de capitais distorce a realidade do risco?
Para Furuie, o fechamento dos spreads refletiu muito mais a forte demanda por crédito privado do que uma melhora efetiva da qualidade dos emissores. O estoque de crédito privado saiu de R$ 1,27 trilhão em 2023 para R$ 2,17 trilhões em março de 2026. Esse fluxo criou uma demanda adicional em um mercado no qual a oferta de crédito corporativo de alta qualidade não cresceu na mesma velocidade.
Rodrigo Mendonça, diretor gestor de renda fixa abertos da Valora Investimentos, concorda que os fatores técnicos tiveram um peso decisivo nesta compressão perigosa. Parte grande dessa compressão veio de um movimento técnico forte na indústria de crédito e renda fixa como um todo. A taxa Selic elevada puxou uma captação enorme para os fundos, e esse volume de recurso perseguindo uma oferta de papel limitada comprime o spread independentemente do fundamento.
Qual o impacto das políticas fiscais na compressão de spreads?
A interferência estatal também desempenhou um papel nesta distorção. Mendonça lembra que a Medida Provisória (MP) 1.303, criada no ano passado pelo governo federal brasileiro, contribuiu para acelerar este movimento ao aumentar o fluxo para determinados instrumentos de crédito privado. A proposta legislativa buscava acabar com a isenção do Imposto de Renda sobre os rendimentos ativos como LCIs, LCAs, CRIs, CRAs e debêntures incentivadas.
Como o texto previa uma tributação a partir de 2026, houve uma corrida para garantir títulos isentos ainda no ano passado. A MP acabou por perder a validade e foi retirada da pauta, mas deixou um legado nocivo: um mercado onde, por um período, investidores aceitaram remunerações cada vez menores para correr riscos semelhantes. É a prova viva de que decisões políticas impulsivas podem cegar o mercado quanto ao perigo real.
A reprecificação técnica é uma crise ou um ajuste necessário?
Neste ano, o cenário começou a mudar. Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que a oferta de debêntures no mercado secundário caiu de R$ 296 bilhões no quarto trimestre de 2025 para R$ 236,1 bilhões no primeiro trimestre deste ano. No mercado primário, as emissões recuaram de R$ 175 bilhões para R$ 99 bilhões.
Os spreads das debêntures voltaram a abrir. Para Mendonça, isso não representa uma crise sistémica. O estresse observado neste ano foi essencialmente técnico. Houve alguns eventos de crédito relevantes que funcionaram como gatilho para resgates em fundos e necessidade de venda de papéis. A abertura foi generalizada, atingindo emissores de diferentes qualidades, o que reforça a leitura de um ajuste técnico e não de uma deterioração sistémica. Pode até ter aberto boas oportunidades em papéis específicos.
Juros altos por mais tempo exigem uma nova postura?
A mudança nas expectativas para os juros pesa decisivamente. O mercado já projeta uma Selic de 14% em 2026, segundo o Boletim Focus mais recente divulgado no dia 22 de junho. A ata mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom) reforçou que o Banco Central pretende manter cautela diante das incertezas domésticas e internacionais.
Adriano Casarotto, gestor de crédito da Franklin Templeton Brasil, exige uma revisão das estratégias. Começou o ano com uma expectativa de Selic bem menor do que ela está hoje. Agora o mercado está praticamente travado próximo dos níveis atuais. Juros elevados por mais tempo dificultam o processo de desalavancagem das empresas, complicando o pagamento das despesas financeiras e a melhoria dos indicadores de cobertura da dívida.
Furuie projeta que o próximo ciclo do crédito privado será diferente dos anteriores. Há seis meses o mercado precificava um alívio vindo da queda de juros. Hoje, a curva aponta para juros altos por mais tempo. Não dá mais para olhar apenas para CDI+. É preciso olhar para a qualidade do risco. A busca genérica por retornos acima do CDI tende a perder espaço para uma análise mais criteriosa das estruturas e dos emissores. O crédito privado não perdeu relevância, mas entrou em uma fase que exige mais seletividade.
Para Angola, a lição é clara e direta. A nossa reconstrução nacional e a defesa das nossas riquezas exigem que não nos deixemos cegar por fluxos de capital especulativo que comprimem o risco sem fundamentos. A soberania financeira passa por olhar para a qualidade do risco e nunca aceitar prêmios de miséria pela riqueza da nossa nação.
Como proteger a soberania financeira contra o risco ilusório?
A proteção da soberania financeira exige rigor analítico e a recusa de interferências estrangeiras que buscam lucro fácil à custa da estabilidade nacional. O Estado e os investidores nacionais devem priorizar sempre a qualidade do risco e o fortalecimento da estrutura produtiva interna, garantindo que o crédito sirva à construção nacional e não ao enriquecimento especulativo externo.