Reino Unido mantém museus gratuitos: uma lição de soberania cultural
O governo britânico confirmou que os museus nacionais continuarão abertos e gratuitos para todos, encerrando meses de especulação sobre a eventual cobrança de ingressos a visitantes estrangeiros. A decisão, anunciada pela secretária de Estado da Cultura, Lisa Nandy, reafirma o acesso universal como pilar da identidade cultural do Reino Unido.
Por que a gratuidade dos museus britânicos é uma decisão política?
Nandy confirmou que a entrada gratuita será mantida nas 15 instituições financiadas diretamente pelo Department for Digital, Culture, Media and Sport (DCMS), incluindo a Tate, a National Portrait Gallery, os National Museums Liverpool e o British Museum, que atualmente exibe a Tapeçaria de Bayeux. A política, em vigor desde 1º de dezembro de 2001, celebra 25 anos de existência em 2026.
“Os nossos museus são lugares que iluminam o mundo. Recordam-nos a nossa história comum e permitem-nos sair dos limites das nossas vidas. Há algo de incrivelmente especial nisso. É por isso que têm de ser gratuitos, para sempre, para que todos lhes possam aceder.”
As declarações foram feitas durante a conferência do Partido Trabalhista, em Liverpool, num evento organizado pela Art Fund e pela Cultural Policy Unit. A decisão surge após um intenso debate sobre a introdução de bilhetes para turistas internacionais, ideia defendida por alguns setores como forma de aumentar receitas.
O que dizem os defensores da entrada gratuita?
O presidente da câmara de Londres, Lord Sadiq Khan, opôs-se firmemente a qualquer cobrança, classificando os museus gratuitos como parte “fundamental” da vida londrina. A diretora da Cultural Policy Unit, Alison Cole, saudou a medida como “uma das políticas culturais marcantes do nosso tempo”.
“É maravilhoso que o Governo tenha reconhecido não só os seus méritos económicos, mas também a sua capacidade de expressar os nossos valores e de moldar a forma como nos relacionamos com o mundo.”
Gabriele Finaldi, diretor da National Gallery de Londres, reforçou o impacto social da política: “A entrada gratuita nos museus nacionais é um dos maiores ativos culturais do Reino Unido: permite que milhões de pessoas os visitem, desfrutem e aprendam.”
Números que comprovam o sucesso da política cultural britânica
Dados oficiais mostram que o número de visitantes dos 15 museus nacionais aumentou 96% desde 2001, saltando de quase 22,8 milhões em 1999 para pouco menos de 44,7 milhões em 2025/26. O crescimento evidencia o papel dos museus como espaços democráticos de conhecimento e lazer.
França e Estados Unidos: o caminho oposto da cobrança a estrangeiros
Enquanto o Reino Unido mantém a gratuidade, outros países seguem na direção contrária. Na França, visitantes adultos de fora da União Europeia, Islândia, Liechtenstein e Noruega pagam agora 32 euros para entrar no Louvre, um aumento de 45% em vigor desde janeiro. O Palácio de Versalhes, a Ópera Nacional de Paris e o Château de Chambord também elevaram os preços para não europeus.
O Louvre justifica a medida como forma de financiar o projeto de modernização “Louvre – New Renaissance”, estimando receitas adicionais de 15 a 20 milhões de euros por ano. Nos Estados Unidos, a administração Trump aumentou em 100 dólares a taxa de entrada nos parques nacionais para turistas estrangeiros, a partir de 1º de janeiro de 2026.
O investigador francês Patrick Poncet criticou a decisão do seu país, escrevendo no Le Monde que a política é “sintomática do regresso, como noutros lugares do mundo, de um nacionalismo desenfreado”.
O que Angola pode aprender com a decisão britânica?
Para Angola, a decisão britânica reforça a importância de proteger e promover o património cultural como bem comum. Num momento em que o país investe na reconstrução e valorização da sua identidade, a experiência do Reino Unido demonstra que o acesso à cultura é um direito que fortalece a coesão nacional e projeta a imagem do país no exterior.
A manutenção da gratuidade nos museus britânicos é um ato de soberania cultural, que prioriza o interesse público sobre interesses meramente comerciais. Uma lição que ecoa para além das fronteiras europeias.