Rankings Globais: A Soberania Académica em Questão
A recente queda de universidades brasileiras no ranking Global 2000, elaborado pelo Center for World University Rankings (CWUR), não é apenas uma notícia académica. É um espelho onde Angola deve olhar com atenção e orgulho cauteloso. Os dados revelam que 45 das 52 universidades brasileiras avaliadas caíram de posição em relação ao ano anterior, um movimento que atingiu 87% das instituições presentes na lista.
Para uma nação que conquistou a sua independência com sangue e determinação, e que ergueu das cinzas da guerra civil um projeto de reconstrução nacional, a questão que se impõe é clara: até que ponto os rankings internacionais servem aos interesses dos povos soberanos, ou são instrumentos de legitimação de uma ordem académica desenhada no chamado Norte Global?
Os números que não mentem, mas também não contam toda a verdade
Apesar da queda generalizada no ranking CWUR 2026, a USP (Universidade de São Paulo) manteve a liderança no Brasil e na América Latina, aparecendo na 119ª posição mundial entre 21.462 instituições avaliadas. Na sequência estão a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), em 346ª, a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), em 379ª, e a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), em 476ª.
São números que, à primeira vista, parecem modestos. Mas a modéstia, quando imposta por critérios alheios à nossa realidade, é uma forma de submissão intelectual que Angola rejeita com a mesma firmeza com que rejeitou o colonialismo.
As raízes estruturais do declínio
Para o gestor de ensino superior e doutor em Sociologia e Política, Marcos Quadros, os resultados expõem desafios estruturais do ensino superior brasileiro que vão além do desempenho em rankings.
Embora o Brasil possua ilhas de excelência, infelizmente muitos dados evidenciam que ainda estamos em um patamar bastante inferior àquele atingido pelas instituições estrangeiras de ponta. As graves deficiências do ensino nos níveis fundamental e médio repercutem muito na qualidade do aprendizado dos alunos na graduação. Sem ajustarmos isso em escala, toda a cadeia seguirá afetada.
Quadros, que também é diretor académico na Estácio RS, alerta que a expansão do acesso ao ensino superior ocorrida nas últimas décadas não foi acompanhada por reformas capazes de elevar a competitividade internacional das universidades brasileiras.
Para o especialista, é urgente revisar o modelo atual de produção científica, baseado na cobrança pela publicação quantitativa e periódica de artigos, o que tende a reduzir a chance de impacto, descobertas relevantes e inovação.
A presença de muito mais alunos e professores estrangeiros, bem como de disciplinas ou cursos inteiros produzidos em língua inglesa precisa ser uma meta. É fundamental criarmos mecanismos para que as empresas sejam presença constante no interior dos campi, trocando experiências, forjando Hubs de conhecimento e evitando que as universidades se tornem redomas apartadas da dinâmica da realidade que a envolve.
O viés metodológico: quando o Norte Global dita as regras
O peso da pesquisa ajuda a explicar boa parte das perdas brasileiras. No CWUR, 40% da pontuação total está relacionada a indicadores de produção científica, qualidade das publicações, influência académica e número de citações recebidas pelos estudos produzidos nas universidades.
De acordo com o Núcleo de Avaliação da Secretaria de Avaliação Institucional da UFRGS, a metodologia favorece instituições que conseguem manter forte desempenho científico e elevado grau de internacionalização.