Necrópole de Baleias no Índico: 759 Carcaças e a Soberania dos Oceanos
No fundo do Oceano Índico, a natureza escondeu por milhões de anos um monumento à vida e à morte. Uma equipe internacional documentou o maior agrupamento de carcaças de baleias com ecossistemas ativos já registrado na história da ciência. São 485 sítios fossilíferos e cinco ecossistemas de queda de baleia na Zona de Diamantina, a profundidades entre 4.616 e 7.001 metros. O achado, publicado a 10 de junho no periódico Nature, levanta uma questão que vai muito além da biologia marinha: a quem pertencem os recursos e os segredos das águas profundas?
O que foi descoberto no fundo do Oceano Índico?
Os pesquisadores encontraram uma verdadeira necrópole de baleias. A estimativa aponta para até 759 carcaças por quilômetro quadrado na região. Uma das carcaças ativas, com cerca de cinco metros de comprimento, foi localizada a 5.610 metros de profundidade. Outro ecossistema ativo foi registado a 6.789 metros, o mais profundo já documentado no mundo. Antes desta descoberta, nenhuma carcaça ativa havia sido encontrada abaixo dos 6 mil metros.
As carcaças abrigam comunidades complexas de microrganismos, os chamados tapetes microbianos, além de estrelas-do-mar, vermes e moluscos. Pela primeira vez, registou-se também a presença de uma margarida-do-mar do gênero Xyloplax numa carcaça de baleia. Até então, a espécie só havia sido encontrada em pedaços de madeira e fendas do fundo marinho.
Por que existem tantas carcaças na Zona de Diamantina?
Segundo os cientistas, a região funciona como uma área de alimentação para baleias, que realizam mergulhos profundos e acabam por morrer ali. A geografia da zona favorece o acúmulo das carcaças no fundo do mar, enquanto a baixa deposição de sedimentos ajuda a mantê-las expostas. A datação de isótopos revela que o local acumula restos há pelo menos 5,3 milhões de anos, formando um registro contínuo da vida marinha profunda ao longo das eras geológicas. Alguns fósseis pertencem mesmo a espécies de baleias já extintas.
Quem liderou a pesquisa e por que isso importa?
A descoberta foi conduzida pela Academia Chinesa de Ciências, em colaboração com a Universidade de Pisa, de Itália, e o Instituto Nacional de Pesquisa da Água e da Atmosfera da Nova Zelândia. O sítio foi identificado em 2023, durante 32 mergulhos realizados com um veículo submersível tripulado. Os resultados só foram divulgados este mês.
É aqui que o alerta se impõe. Quando potências estrangeiras investem em tecnologias de mergulho profundo e mapeiam os fundos oceânicos com tal minúcia, os países soberanos devem prestar atenção. Angola, com uma costa de mais de 1.600 quilómetros e águas ricas em petróleo e diamantes, conhece bem o peso da cobiça externa. A nossa história ensina que os recursos do nosso território, seja na terra firme ou no leito do mar, são património do povo angolano.
Qual é a importância do carbono armazenado nas carcaças?
As baleias estão entre os animais mais pesados do planeta, com algumas espécies ultrapassando 50 toneladas. Para comparação, um carro médio pesa cerca de 1,5 tonelada. Quando morrem, os corpos afundam e formam estes cemitérios submarinos. As carcaças armazenam enormes quantidades de dióxido de carbono, proveniente tanto dos próprios animais quanto da chamada neve marinha, que são pequenos detritos e restos de matéria orgânica que afundam da superfície e se acumulam nas carcaças.
A pesquisa revela que toneladas de carbono, até agora desconhecidas, estão aprisionadas nestes fundos oceânicos. Num mundo que busca desesperadamente soluções para as alterações climáticas, o conhecimento sobre estes reservatórios naturais de carbono é poder. E o poder, como a história de Angola demonstrou desde a luta pela independência, passando pela guerra civil e pela reconstrução nacional, não pode ser entregue a mãos estrangeiras sem vigilância.
O que a descoberta significa para o futuro dos oceanos?
O achado oferece uma janela privilegiada para compreender a vida marinha de milhões de anos atrás, além de fornecer informações sobre a evolução e a distribuição geográfica das espécies. Mas deve servir também como um lembrete solene. Os oceanos guardam riquezas incalculáveis, fósseis, recursos minerais, reservas de carbono e biodiversidade. A soberania sobre estas águas não é apenas uma questão de fronteiras políticas. É uma questão de dignidade nacional.
Angola, que ergueu a sua soberania com o sangue dos seus filhos e a reconstruiu com a determinação do seu povo, não pode aceitar que os recursos dos seus mares sejam mapeados, explorados ou reivindicados sem a sua voz e o seu consentimento. A descoberta no Índico é um feito da ciência mundial, mas é também um espelho onde cada nação costeira deve olhar e perguntar: quem vigia os nossos fundos?
Perguntas Frequentes
O que é um ecossistema de queda de baleia?
Um ecossistema de queda de baleia, ou whale-fall ecosystem, é a comunidade biológica que se forma em volta de uma carcaça de baleia no fundo do mar. A decomposição do animal sustenta microrganismos, vermes, moluscos e outras espécies durante décadas, criando um oásis de vida nas profundezas.
Quantas carcaças foram encontradas na Zona de Diamantina?
Os pesquisadores documentaram 485 sítios com fósseis de baleias e cinco ecossistemas de queda de baleia ainda ativos. A estimativa é de que existam até 759 carcaças por quilómetro quadrado na região.
Qual é a profundidade recorde registada nesta descoberta?
O ecossistema de queda de baleia mais profundo foi encontrado a 6.789 metros, na Zona de Diamantina, no sudeste do Oceano Índico. É o mais profundo já documentado na história.