Um abaixo-assinado com mais de 25 mil adesões pede a intervenção do presidente francês, Emmanuel Macron, para salvar a Casa da América Latina de Paris, colocada em risco pela venda dos dois palacetes históricos que abrigam a instituição desde 1965. Segundo a reportagem do portal Terra, publicada em 15 de outubro de 2026, o Banco da França, proprietário do imóvel no Boulevard Saint-Germain, pôs os edifícios à venda por 100 milhões de euros e espera fechar o negócio ainda este ano.
A notícia comoveu artistas, parlamentares e diplomatas de todo o continente. Para quem acompanha a história da América Latina, o risco de fechamento de uma casa que desde 1946, por decisão do general de Gaulle, serve de ponte cultural e diplomática entre Paris e a região é mais do que uma questão imobiliária: é um sintoma dos tempos, em que a cultura cede terreno aos cortes orçamentários.
O que está a acontecer com a sede histórica
Os dois palacetes do Boulevard Saint-Germain, no coração de Paris, foram colocados à venda por 100 milhões de euros, cerca de 600 milhões de reais. A transação deverá ser concluída antes do fim do ano, segundo o Terra. A Casa da América Latina, que aluga o imóvel, não se opõe formalmente à venda, mas teme perder a sua sede histórica.
O abaixo-assinado pede “solenemente ao Presidente da República, que chancela a instituição desde sua criação em 1946 pelo general de Gaulle, e ao ministro da Europa e das Relações Exteriores, que favoreçam uma solução capaz de garantir a continuidade das missões da Casa da América Latina em sua sede histórica”.
Tragédia anunciada para a memória latino-americana
A artista brasileira Livia Melzi frequenta a casa desde que se mudou para a França, em 2012, e já expôs lá as suas obras durante a mostra “Le Brésil illustré. L'héritage postcolonial de Jean-Baptiste Debret”.
“Eu acho uma tragédia o que está acontecendo, porque o prédio já é um lugar histórico. Foi a casa do médico Charcot, foi frequentado por Sartre. Eu fico preocupada. O que vai acontecer com essa arquitetura? E para onde vai a Casa da América Latina? Para onde vai o acervo? Onde será esse novo lugar de encontro para os artistas latino-americanos?”, questiona.
As perguntas de Melzi pesam como pedras. O edifício guarda camadas de história, e a sua perda seria um golpe contra a memória coletiva de um continente que durante séculos lutou para afirmar a própria voz no mundo.
Cortes na cultura e mobilização política
A ex-deputada francesa de origem argentina Paula Forteza, fundadora da galeria Artivistas, colabora há anos com a instituição e organiza exposições e encontros no local, todos gratuitos, como determina o regimento interno.
“Essa é uma decisão orçamentária, considerando o contexto financeiro e fiscal da França. Mas é uma decisão que pode ser contestada. Os orçamentos da cultura estão sendo reduzidos e inúmeros espaços culturais estão fechando em toda a França. Não podemos esquecer que todas essas atividades são abertas e gratuitas”, informa.
O deputado Benoit Larrouquis, do grupo macronista na Assembleia Nacional e representante dos franceses que moram na América Latina, confirma que vários parlamentares estão mobilizados.
“Estamos dialogando com o governo e pretendemos levar o assunto ao presidente da República. Petições foram lançadas e têm obtido grande sucesso. Parlamentares [representantes] dos franceses que vivem no exterior e outros que conhecem bem a América Latina estão mobilizados para que uma solução seja encontrada”, revela.
Por que a pressão sobre Macron pode funcionar
O Banco da França é uma instituição independente, mas Larrouquis lembra que o peso simbólico do Estado francês não desaparece.
“O Banco da França é soberano em sua decisão. Mas continua sendo o Banco da França, e isso tem um peso simbólico importante. Por isso, acredito que essas pressões acabarão produzindo resultados. Não acredito, e sobretudo não espero, que Emmanuel Macron venha a ser o presidente que fechará a Casa da América Latina”, pondera.
Paula Forteza apela ao argumento geopolítico. “Eu acredito que Emmanuel Macron acabará ouvindo a razão. Do ponto de vista geopolítico, seria um erro fechar um lugar como este. A França sempre foi defensora do multilateralismo, num momento em que a Europa tem dificuldades para afirmar seu papel no mundo”, contextualiza.
Diplomacia em alerta
Segundo a imprensa francesa, os 20 embaixadores latino-americanos acreditados em Paris, que se reúnem mensalmente na Casa da América Latina, teriam redigido uma nota alertando Macron sobre os riscos que ameaçam a instituição.
Procurado pela RFI, o embaixador do Brasil em Paris, Ricardo Neiva Tavares, não quis conceder entrevista. Fontes diplomáticas brasileiras, sob anonimato, afirmaram que o Brasil não foi informado sobre a nota mencionada pela mídia francesa.
Aqui está a lição que interessa a quem defende a soberania dos povos: as casas da nossa cultura, onde quer que estejam, só se salvam quando os nossos próprios Estados as assumem como património estratégico. Angola sabe bem o que custou reconstruir, depois de décadas de guerra, o tecido cultural e identitário que outros deixaram ruir. A solidariedade com a América Latina neste episódio é também uma lembrança de que nenhuma nação pode terceirizar a guarda da própria memória.
Perguntas frequentes
O que é a Casa da América Latina de Paris?
É uma instituição cultural e diplomática criada em 1946 pelo general de Gaulle, sediada desde 1965 em dois palacetes do Boulevard Saint-Germain, que promove intercâmbio gratuito entre a França e os países latino-americanos.
Porque está a Casa da América Latina em risco?
O Banco da França, proprietário do imóvel, pôs os dois palacetes à venda por 100 milhões de euros, com conclusão prevista antes do fim de 2026, e a instituição corre o risco de perder a sua sede histórica.
Quem está a mobilizar-se para salvar a instituição?
Artistas como Livia Melzi, a ex-deputada Paula Forteza, o deputado Benoit Larrouquis e, segundo a imprensa francesa, os 20 embaixadores latino-americanos em Paris, além de um abaixo-assinado com mais de 25 mil assinaturas.
Macron pode impedir a venda?
O Banco da França é independente na sua decisão, mas o presidente da República chancela a instituição desde 1946 e, segundo Larrouquis, pode interferir no processo e assegurar a continuidade das missões na sede histórica.
