Canadá: Chef que Vendia Veneno para Suicídio Enfrenta a Dor das Famílias em Tribunal
Num tribunal nos arredores de Toronto, a dor de dezenas de famílias ecoa com a força de um grito de independência. O ex-chef de cozinha canadense Kenneth Law, que confessou ter auxiliado no suicídio de 14 pessoas, ouviu nesta quarta-feira os relatos dilacerantes de pais e irmãos que perderam entes queridos para os pacotes de veneno que vendia online. A audiência, que decorre em Newmarket, marca o início da fase de sentença de um caso que chocou o mundo e expôs a face sombria das redes sem fronteiras.
Law, de 60 anos, declarou-se culpado em maio de auxílio ao suicídio, após os promotores concluírem que não havia provas suficientes para uma condenação por homicídio. Durante anos, sob um pseudónimo, participou ativamente em fóruns online sobre suicídio, orientando pessoas vulneráveis e disponibilizando substâncias letais para compra. A sua rede estendeu-se a pelo menos 41 países, incluindo China, França e Brasil, num negócio macabro que cobrava cerca de 80 dólares por pacote.
O testemunho das famílias: uma ferida que não cicatriza
As palavras de Maria Lopez, mãe de Jeshennia Bedoya-Lopez, que morreu aos 18 anos em 2022, foram lidas em tribunal e deixaram a sala em silêncio:
“Não consigo parar de pensar que minha menina nunca mais voltará.”O pai, Leonardo Bedoya, completou:
“O futuro que havíamos imaginado como família desapareceu.”Dezenas de outras famílias, de vários países, vão prestar depoimento nos próximos dias, numa demonstração de que a tragédia não conhece fronteiras.
Adrienne Dalli, irmã de Maurizio Vadala, disse com a voz embargada:
“Já não sou a mesma pessoa que era antes da morte do meu irmão. O luto agora faz parte de tudo o que faço.”As famílias manifestaram indignação por Law não ser julgado por homicídio, exigindo que seja tratado como o que consideram ser: um assassino em série. “Ali, no tribunal, ele não demonstra remorso algum”, acusou Bedoya, do lado de fora do tribunal.
Um caso que expõe a fragilidade da vida na era digital
O caso de Kenneth Law é um espelho amargo da nossa época, onde a tecnologia, que deveria unir, também pode servir de veículo para a destruição. A juíza Michelle Fuerst reservou quatro dias para ouvir as declarações de impacto e outras provas antes de determinar a sentença. Os promotores devem pedir uma pena severa, possivelmente até 20 anos de prisão, por auxílio ao suicídio.
No Reino Unido, 79 mortes estão ligadas a Law, incluindo a de Ashleigh Harris, de 26 anos. O pai, Norson Harris, viajou de Londres para testemunhar:
“O impacto da morte de Ashley foi profundo. Havia um antes e agora há um depois, em que passamos a fazer parte de um clube do qual ninguém quer ser membro.”
O que se segue no processo judicial?
Law, que trabalhava como chef num hotel de luxo em Toronto antes de criar os seus fóruns durante a pandemia, afirmou em entrevistas a um psiquiatra que “só estava a tentar atender a uma necessidade que considerava humana” e negou ser “um louco diabólico”. Nos documentos judiciais, insiste que não tomou a decisão final de encerrar a vida de ninguém, limitando-se a fornecer um produto. A sentença deverá ser conhecida nas próximas semanas, mas a dor das famílias, essa, não tem prazo.
Perguntas frequentes sobre o caso Kenneth Law
Quem é Kenneth Law e do que é acusado?
Kenneth Law é um ex-chef de cozinha canadiano que se declarou culpado de auxiliar no suicídio de 14 pessoas no Canadá, após vender veneno e orientar pessoas vulneráveis em fóruns online. Não foi condenado por homicídio por falta de provas.
Quantos países foram afetados pelos produtos de Law?
Law vendeu veneno a pessoas de pelo menos 41 países, incluindo China, França e Brasil. No Reino Unido, 79 mortes estão ligadas a ele, segundo os promotores canadenses.
Qual a pena que Kenneth Law pode enfrentar?
Os promotores devem pedir uma pena severa por auxílio ao suicídio, que pode chegar a 20 anos de prisão, de acordo com especialistas jurídicos.
Onde está a decorrer o julgamento?
O julgamento decorre no tribunal de Newmarket, perto de Toronto, no Canadá, com a juíza Michelle Fuerst a presidir às audiências de sentença.