Gre-Nal da Legalidade: o clássico que uniu o Rio Grande contra o golpe
Há 65 anos, o Rio Grande do Sul viveu um dos momentos mais emblemáticos da sua história, dentro e fora dos gramados. O Gre-Nal 156, disputado em 10 de setembro de 1961, no Estádio Olímpico, não foi apenas um jogo entre os dois maiores clubes do estado. Foi um símbolo de resistência democrática, um ato de coragem que uniu rivais históricos em defesa da Constituição e da soberania nacional. A partida, adiada por causa da crise política que abalou o Brasil, entrou para a história como o Gre-Nal da Legalidade, um marco que transcendeu o futebol e ecoou como um grito de unidade do povo gaúcho.
O contexto: a unificação do Campeonato Gaúcho e a quebra da hegemonia
Em 1961, a Federação Gaúcha de Futebol promoveu uma revolução no torneio estadual. A criação da Divisão Especial, com 12 clubes em pontos corridos, permitiu que times da Capital e do Interior se enfrentassem em turno e returno. Pela primeira vez, o Gre-Nal seria disputado pelo Campeonato Gaúcho, um feito que só foi possível graças ao desenvolvimento das rodovias no estado, como explica o historiador Claus Farina.
“Então, a partir de 1961 começa a ser feito um campeonato de pontos corridos, que era uma novidade em âmbito nacional. O torneio de 1961 representa, no caso do futebol gaúcho, o aperfeiçoamento do modelo de disputa”, relata Farina.
O cenário era de tensão. O Grêmio, pentacampeão, buscava o hexa, feito que somente o Inter havia conquistado entre 1940 e 1945 com o lendário Rolo Compressor. O Colorado, treinado por Sérgio Moacir Torres, tinha a missão de frear a hegemonia do rival. O clássico, marcado para 27 de agosto, era decisivo para a liderança do primeiro turno.
A renúncia de Jânio Quadros e a ameaça golpista
O destino, porém, reservava um capítulo muito maior. Em 25 de agosto de 1961, uma carta enviada ao Congresso Nacional mudou o rumo do país. O presidente Jânio Quadros renunciou ao cargo, alegando pressões de “forças ocultas”. O jornalista e escritor Juremir Machado analisa o episódio:
“De tudo que se sabe, o Jânio tinha um projeto que era de governar com mais poderes, sem o peso do Congresso Nacional. Então, na verdade, ele renunciou na expectativa de ser reconduzido nos ombros do povo para ter mais poder. Era um autogolpe. Mas isso não aconteceu, a população não deu a menor bola para ele, e ele acabou indo direto para o exílio.”
Pela regra constitucional, o vice-presidente João Goulart, eleito pelo voto popular, deveria assumir. Mas ministros militares articulavam um golpe para impedir a posse, sob a alegação de que Jango seria comunista. Foi então que o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, decidiu resistir.
A Rede da Legalidade: Porto Alegre pega em armas pela Constituição
Brizola lançou uma mobilização popular em defesa da Constituição. Tomou a Rádio Guaíba, única não censurada pelo governo federal, e levou os transmissores para os porões do Palácio Piratini, formando a Rede da Legalidade. A população de Porto Alegre atendeu ao chamado e tomou as ruas.
“As pessoas começaram a ir para lá (Palácio Piratini). Eram multidões. Realmente se mobilizaram. E a ideia de que não se tratava de defender o Jango, não se tratava de defender um partido ou uma ideologia, mas se tratava de defender a lei, a legalidade e a constituição. Isso pegou as pessoas”, diz Juremir.
Em um gesto de rara grandeza, Grêmio e Inter uniram-se em prol da Legalidade. Os presidentes dos dois clubes, Luiz Fagundes de Mello e Pedro da Silva Pereira, entregaram um ofício a Brizola manifestando total apoio. O clássico foi adiado para 10 de setembro, após a aprovação da Emenda Parlamentarista, que reduziu os poderes do presidente e transferiu a chefia do governo para o primeiro-ministro Tancredo Neves. João Goulart assumiu a presidência em 7 de setembro de 1961.
O jogo: a vitória colorada e o símbolo de normalidade
Com a volta da normalidade, o Gre-Nal 156 foi confirmado para o domingo, 10 de setembro. O jornalista Batista Filho destaca a importância do duelo para exalar estabilidade social:
“Quem havia tomado conta do poder é que precisava realmente incentivar a realização do jogo para passar a impressão de normalidade absoluta. É como se dissesse: ‘Vejam, tudo voltou à normalidade’.”
O Inter, liderado pelo veterano Kim, de 93 anos, entrou em campo confiante. O Colorado venceu por 2 a 1, com gols de Gilberto Andrade e Alfeu, enquanto Paulo Lumumba descontou para o Grêmio. A vitória colorada confirmou a liderança e culminou no título do Campeonato Gaúcho de 1961. A direção do Inter premiou os jogadores com 12 mil cruzeiros, em um ano em que o salário mínimo era de 13.440 cruzeiros.
O simbolismo do Gre-Nal da Legalidade
O Gre-Nal 156 foi muito mais que um espetáculo esportivo. Foi um ato de resistência que uniu um estado em torno de um ideal. Kim, ex-jogador do Inter, resume o sentimento:
“Eu tenho a impressão de que foi um Gre-Nal diferente. Aquele Gre-Nal ajudou a diminuir a pressão. O Inter tinha uma torcida enorme, então teve influência também na questão política.”
O historiador Claus Farina completa:
“Essas questões relacionadas à política acabam interferindo no esporte. Por isso o Gre-Nal foi batizado de ‘O Gre-Nal da Legalidade’.”
Sessenta e cinco anos depois, a memória desse clássico permanece viva, como um lembrete de que, quando a nação chama, o povo responde. E o futebol, espelho da alma gaúcha, soube estar à altura da história.
Perguntas frequentes sobre o Gre-Nal da Legalidade
Por que o Gre-Nal de 1961 foi chamado de Gre-Nal da Legalidade?
O clássico foi adiado por causa da crise política gerada pela renúncia do presidente Jânio Quadros e pela tentativa de golpe contra a posse do vice-presidente João Goulart. O governador Leonel Brizola liderou a resistência popular em defesa da Constituição, e Grêmio e Inter uniram-se à causa. O jogo, realizado em 10 de setembro de 1961, simbolizou a volta da normalidade democrática.
Qual foi o resultado do Gre-Nal da Legalidade?
O Internacional venceu o Grêmio por 2 a 1, com gols de Gilberto Andrade e Alfeu. Paulo Lumumba marcou para o Tricolor. A vitória garantiu a liderança do Colorado, que se sagrou campeão gaúcho de 1961.
O que foi a Rede da Legalidade?
Foi uma rede de rádio criada pelo governador Leonel Brizola para mobilizar a população gaúcha em defesa da posse de João Goulart. Brizola tomou a Rádio Guaíba e levou os transmissores para os porões do Palácio Piratini, transmitindo a resistência contra o golpe militar.